Monday, November 2, 2009

NEGOCIOS “OPACOS” BLAIR CONDICIONAM A SUA AMBIçAO EUROPEA

Numa das esquinas de Grosvenor Square, em Mayfair, palco da primeira embaixada dos EUA em Londres, encontra-se uma bela mansão do século XVIII que é também o cenário para onde convergem numerosos elementos da vida pós-política de Tony Blair.

Apesar de nesta zona o preço do metro quadrado no segmento dos escritórios ser um dos mais caros do mundo, Blair raramente desfruta do elegante escritório e das respectivas vistas. Regra geral, ausenta-se três semanas por mês para percorrer o planeta de lés a lés na defesa de causas como a paz e a caridade, ou pura e simplesmente para ganhar dinheiro. “Primeiro-ministro na reforma? De modo algum, não se sente um ‘reformado’”, diz um assessor.

O escritório é uma espécie de “sala do trono” de um vasto império que reúne interesses empresariais e caritativos, que além de complexo é inconveniente pelo facto de Blair alimentar a ambição de vir a ser o primeiro presidente da União Europeia (UE). Trata-se de um império assente numa imensa rede de negócios e parcerias, cuja actividade abarca desde a gestão de empresas com fins lucrativos à supervisão de donativos a instituições de caridade por parte de figuras como Bill Gates ou Lord Sainsbury. A estrutura bizantina deste império faz com que as finanças do ex-primeiro-ministro britânico sejam hoje algo opacas.

Tony Blair está longe de ser o primeiro homem de Estado “reformado” cujos projectos pessoais despertam o interesse do público. Nos EUA, esse interesse, que abarca todo um leque de figuras políticas, de Henry Kissinger a Bill Clinton, ganhou contornos de passatempo social obrigatório. A escala e abrangência do seu império é, na prática, aquilo que o torna tão atractivo, apesar dos seus detractores criticarem a proximidade desconfortável entre os seus deveres oficiais, interesses comerciais crescentes e campanhas de angariação de fundos.

O mais importante, porém, é saber se a nova vida do antigo líder dos Trabalhistas é compatível com o cargo que ambiciona vir a desempenhar na União Europeia. Os líderes europeus poderão não ter interesse em nomear para Presidente da UE um homem cujos negócios são tão complexos e, no dizer de alguns, indistintos. Isto porque a sua vida pós-política tem incluído encontros e parcerias comerciais com figuras controversas como Paul Kagame, presidente do Ruanda, ou o líder líbio Muammar Kadafi.

Mas não só. Também importa saber se estará disposto a aceitar as condições inerentes ao cargo, que obrigariam à reformulação total dos seus negócios. Grande parte do seu império teria de ser desmantelado mais depressa do que foi construído. Ninguém sabe quantos milhões ganha, mas se aceitar ser Presidente da UE terá, seguramente, muito a perder. Só este ano, visitou mais de 20 países, da Ásia Oriental à África Central, em muitos casos mais do que uma vez. No entanto, nenhuma região reflecte melhor a sua vida como figura pública, angariador de fundos e empresário do que o Médio Oriente. O trabalho que tem desenvolvido como enviado especial do Quarteto (EUA, UE, ONU e Rússia) para a região é, sem dúvida, a sua missão mais emblemática. Blair reserva pelo menos dez dias por mês para levar a cabo essa tarefa que, muitas vezes, também envolve a angariação de fundos ou pressões no sentido da reabertura de ‘checkpoints’ na Faixa de Gaza. Uma missão delicada, mas que é bem-vista no terreno.

Este é o único papel público que verdadeiramente desempenha. O problema é que alguns deveres diplomáticos andam de mãos dadas com os seus interesses comerciais na região. A prioridade de Blair quando visita a Península Arábica e a Ásia Central vai para a angariação de fundos, no entanto, vezes houve em que aproveitou essas oportunidades para divulgar o seu trabalho com instituições de caridade ou para apresentar a sua mais recente parceria privada, a Tony Blair Associates (TBA).
O seu trabalho como facilitador ao mais alto nível tem sido alvo de fortes críticas. O deputado conservador Daniel Kawczynski, presidente do grupo inter-parlamentar para a Líbia da Câmara dos Comuns, considera que o trabalho de Blair “é condenável por poder capitalizar o facto de ter sido primeiro-ministro. A isto acresce que não fazemos ideia do tipo de empresa que é a TBA”. O seu trabalho na área da filantropia também passou a estar sob apertado escrutínio, visto as instituições envolvidas não serem obrigadas a divulgar o nome dos doadores e se desconhecer a origem da maior parte dos fundos doados. Em suma, é impossível dizer se as respectivas actividades se justapõem aos trabalhos que desenvolve um pouco por todo o mundo.

Um dos exemplos que melhor ilustra a delicadeza da questão é o trabalho ‘pro bono’ que Blair tem levado a cabo em África. O projecto “Governance Initiative” visa, em concreto, ajudar os presidentes da Serra Leoa e do Ruanda a atrair investidores estrangeiros e a desenvolver políticas para os seus países. O aspecto mais intrigante desta instituição ainda em fase embrionária - as autoridades britânicas podem, a qualquer momento, reconhecer o seu estatuto de instituição para fins caritativos -, é recolher os fundos necessários à sua actividade através da Windrush Ventures Nº 3, uma parceria com fins lucrativos de que Blair é proprietário e que não divulga os resultados das suas actividades.

Sabe-se que a Windrush recebeu 2,4 milhões de dólares (1,6 milhões de euros) da Bill and Melinda Gates Foundation destinados à Serra Leoa e 1,5 milhões de libras (1,6 milhões de euros) para o Ruanda doados pela Gatsby Charitable Foundation, criada por Lord Sainsbury. É possível dizer, através das contas das outras duas ‘ventures’ da Windrush Nº 3, que a organização gerou retornos na ordem dos 6,4 milhões de libras (7,1 milhões de euros) e lucros no valor de 350 mil libras (394 mil de euros). No entanto, um porta-voz de Blair garante que a Governance Initiative “não tens fins lucrativos e que é gerida em conformidade com os termos definidos pelos fundadores, nos quais se estabelece a existência de uma conta bancária à parte e a entrega regular aos ‘stakeholders’ de relatórios sobre a gestão financeira da organização”.

O ‘modus operandi’ do “império Blair” pode criar complicações práticas ao exercício de funções como Presidente da UE, cargo criado pelo Tratado de Lisboa e ao qual se aplica o mesmo código de conduta que aos comissários europeus.

Blair sabe que terá de fazer sacrifícios se optar por regressar à linha da frente do serviço público, designadamente “abdicar de todo e qualquer trabalho remunerado ou não remunerado”. As conferências pagas - uma das actividades mais lucrativas de Tony Blair - terão de acabar, embora possa manter cargos honoríficos em instituições de caridade, na condição de não exercer qualquer poder de decisão na sua gestão. Citando um diplomata europeu: “Blair pode manter a sua fé e pouco mais”.

Resumindo, tudo aspectos danosos para o “império Blair”. As empresas comerciais - como a TBA, que presta serviços de consultoria ao JP Morgan e à Zurich Financial - teriam de ser encerradas ou totalmente transformadas. Mais. A actividade das ‘ventures’ ligadas à Windrush também teria de ser suspensa. Tal como a comissão que Blair recebe do Washington Speakers Bureau, que se estima rondar um milhão de libras (1,1 milhões de euros), no caso de ficar indisponível para conferências pagas.

Depois de reformular o seu império, Blair teria, na qualidade de Presidente da UE, de apresentar uma declaração sobre os seus interesses financeiros que incluísse uma lista exaustiva de toda a sua actividade empresarial desde que cessou funções como primeiro-ministro. Lista essa que teria, forçosamente, de incluir todos os serviços prestados a clientes que possam, potencialmente, resultar num conflito de interesses.
Outro pormenor importante: as suas memórias. A Random House adiantou a Tony Blair 4,6 milhões de libras (5,16 milhões de euros) pelo seu livro de memórias. A publicação está prevista para breve, mas poderá coincidir com a saída do seu rival político e “parceiro sucessor”, Gordon Brown, de Downing Street. As regras europeias não prevêem qualquer mecanismo que ponha cobro a esta situação caso Blair venha a ser nomeado Presidente da UE, desde que “não exista qualquer relação com os seus deveres e funções”.

As instituições de caridade a que está ligado teriam de ser reestruturadas a fim de eliminar os seus poderes de gestão nas mesmas, o que quer dizer que ficariam privadas do seu mais dinâmico angariador de fundos e teriam de suportar a elevada renda do escritório de Mayfair, paga na quase totalidade pelos negócios empresariais de Blair.

Amigos mais próximos dizem que o ex-primeiro-ministro britânico “ainda não decidiu cabalmente” sobre a possibilidade de vir a ser Presidente da UE. Com tanta coisa em jogo na sua “nova vida”, compreende-se que pondere seriamente se vai dar esse passo. “Gosta de dinheiro como todos nós, mas não é isso que o move. Creio que o serviço público, o poder, é a sua maior motivação”, refere um associado.

Tradução de Ana Pina

Exclusivo Financial Times

Posted by Julinho at 10:37:32 | Permalink | No Comments »