Sunday, October 25, 2009

Hitler: A biografia definitiva

Pré-publicação: Ian Kershaw revisita o indivíduo medíocre que se tornaria no maior monstro da história.

Alois Schicklgruber, o homem que viria a ser pai de Adolf Hitler, nasceu em 1837 e o primeiro da família a ascender na escala social – em 1875, já era inspector alfandegário -, mudou o nome para Alois Hitler em 1976. Nesse ano, Klara Pölzl, então com 16 anos, deixou a família e mudou-se para Braunau am Inn como criada de servir da família de Alois, o qual casaria três vezes – primeiro com Anna Glasserl; depois, com Franziska (Fanni) Matzelberger, que podia ser sua filha e morreu de tuberculose aos 23 anos. O corpo dela mal arrefecera e Klara já engravidara de Alois, com quem casou em 1885. Quatro anos depois, às 18.30 de 20 de Abril, sábado de Páscoa, Klara deu à luz o quarto filho e o primeiro a sobreviver à infância: Adolf.

Alois auferia rendimento sólido, cujo agregado era composto pelos dois filhos de Fanni, por Adolf e o irmão mais novo, Edmund, a irmã Paula e a tia Johanna. A família desfrutava do conforto da classe média, mas não era feliz. Alois era o arquétipo do funcionário público provinciano – pomposo, orgulhoso do estatuto, mal-humorado e totalmente dedicado à profissão. Tinha mau feitio, com explosões imprevisíveis; em casa, era autoritário e opressivo, marido dominador e pai inflexível, imperioso e facilmente irritável.

A falta de afecto do pai sentida pelas crianças era compensada pela mãe. Segundo o médico judeu dela, Eduard Bloch, Klara Hitler era “simples, modesta e afável. Alta, tinha cabelo acastanhado, impecavelmente entrançado, rosto oval e olhos azuis-acinzentados expressivos”. Submissa, reservada e calada, ia à igreja com frequência, dona-de-casa escrupulosa que cuidava exemplarmente bem dos filhos e enteados. A morte, em poucas semanas, dos primeiros três filhos durante a infância, e o falecimento do quinto, Edmund, em 1900, ainda não tinha 6 anos, foram-lhe extremamente dolorosas, desgostos acrescidos por um marido irascível, insensível e dominador.

Não admira que, tristonha e desgastada, tenha dedicado um amor protector e sufocante, quase devoto, aos filhos sobreviventes, Adolf e Paula. Eles correspondiam-lhe, em especial Adolf. “O amor à mãe era a característica que mais se destacava nele”, escreveu Bloch. “Eu nunca tinha visto apego tão intenso”. Adolf escreveu no Mein Kampf: “Respeitei o meu pai, mas amei a minha mãe”. Nunca se separou do retrato dela até aos últimos dias no bunker. A mãe terá sido a única pessoa que amou verdadeiramente.

Os primeiros anos de Adolf passaram sob o escudo protector e sufocante da mãe ansiosa, num ambiente dominado pela presença ameaçadora do pai disciplinador, contra cuja ira a submissa Klara era impotente. Paula descreveu-a como “terna e dócil, o elemento compensatório entre um pai excessivamente duro e umas crianças vivazes algo difíceis. Em especial, o Adolf desafiava o meu pai, levando-o a proceder com extrema dureza e éramos espancados todos os dias”. O próprio Hitler contava que o pai era dado a explosões repentinas que resultavam em castigos corporais imediatos. A pobre mãe, que tanto amava e a quem era tão apegado, vivia na aflição constante devida às sevícias a que o filho era sujeito, e aguardava no lado de fora da porta enquanto ele era espancado.

Sob a superfície, o homem que Hitler seria estava em formação. O menosprezo da sobranceria paternalista que teria pela submissão feminina, a sede de dominar os outros (acalentando o imaginário do chefe como figura paternal inflexível e autoritária), a incapacidade de relações pessoais profundas, a brutalidade fria para com a espécie humana e – não menos importante – a capacidade de sentir um ódio tão profundo que, decerto, terá espelhado a aversão por si próprio, oculta pelo narcisismo extremado que era o contraponto, terão raízes nas circunstâncias familiares do jovem Adolf. Os traços exteriores da primeira fase da sua vida não indicam em nada, porém, o que viria a acontecer; aquele ambiente familiar, aliás, compaixão pela criança exposta a tais circunstâncias.

Em 1898, os Hitler mudaram para Leonding, arredores de Linz. Por essa altura, Adolf ficou obcecado pelas histórias de Karl May, contos populares do Oeste Selvagem que empolgavam milhares de jovens. A maior parte pô-las de lado com as fantasias da meninice; mas, para Adolf, o fascínio por May nunca esmoreceu e, já chanceler do Reich, continuava a ler as suas histórias, recomendando-as aos generais.

Em 1900, todavia, os dias de despreocupação estavam a chegar ao fim. Devido à morte, por sarampo, de Edmund, as ambições de os descendentes fazerem carreira residiam agora em Adolf, sendo fonte de tensões entre pai e filho. Iniciados os estudos secundários em Setembro, a transição foi-lhe difícil: ia a pé até à escola em Linz, jornada de mais de uma hora na ida e na volta, deixando-lhe pouco tempo para amizades fora do círculo escolar, onde não tinha amigos chegados nem os procurava. E o esforço mínimo que a primária lhe exigira já não era suficiente – as suas notas, até deixar a escola em 1905, oscilaram entre o mau e o medíocre.

O director da antiga turma, Eduard Huemer, recordou Adolf como magro e pálido e a quem faltava aplicação, incapaz de se adaptar à disciplina escolar; caracterizou-o como teimoso, despótico, dogmático e colérico – recebia as críticas dos professores com insolência mal disfarçada. Com os colegas, era autoritário e figura dominadora em brincadeiras de mau gosto que denotavam imaturidade, o que Huemer atribuía à obsessão pelas histórias de May, associada à tendência para desperdiçar tempo. Hitler deixaria a escola “imbuído de um ódio elementar” para com ela e, mais tarde, troçou e escarneceu dos professores. Só o de História, Leonard Pötsch, lhe mereceu elogios no Mein Kampf por lhe despertar o interesse através de narrativas vívidas e lendas de heroísmo do passado da Alemanha, germinando um nacionalismo germânico fortemente emocional.

Aos problemas de adaptação de Adolf acrescia a deterioração na relação com o pai. Para Alois, as virtudes da carreira de funcionário público eram irrefutáveis, mas colidia na rejeição irredutível de Adolf. Quanto mais este resistia, mais autoritário e persistente se tornava o pai. Igualmente obstinado, Adolf queria ser artista – o que para Alois, austero funcionário público, era impensável. Quando morreu, em 1903, o conflito por causa do futuro de Adolf acabou. O seu aproveitamento continuou medíocre e, em 1905, com 16 anos, serviu-se de uma doença – fingida ou exagerada – para persuadir a mãe a deixar a escola de vez.

Entre essa altura e a morte da mãe, em 1907, Adolf levou uma vida de ociosidade parasítica – financiado e bem cuidado, mimado por uma mãe extremosa, com quarto próprio no apartamento de Linz onde a família vivia. A mãe, Paula e a tia Johanna acudiam a todas as necessidades, lavando, limpando e cozinhando para ele – a mãe até lhe comprou um piano de cauda em que teve lições quatro meses. Passava o dia a desenhar, a pintar, a ler ou a escrever “poesia”; à noite ia ao teatro ou à ópera; e sonhava acordado, fantasiando o futuro como artista de nomeada. O estilo de vida indolente, a grandiosidade das fantasias, a falta de disciplina no respeita a um trabalho sistemático – características do Hitler posterior – viram-se nesses dois anos em Linz, que referirá como “os dias mais felizes, um sonho maravilhoso”.

O único amigo da altura, August Kubizek (“Gustl”), filho de um estofador, descreve-os bem. Conheceram-se em 1905, na ópera, gosto partilhado por Adolf, fanático de Wagner. Gustl era impressionável; Adolf procurava a quem impressionar. Gustl era cordato e submisso; Adolf era determinado e dominador. Gustl não tinha convicções; Adolf tinha-as sobre tudo. “Ele tinha de falar”, recordou Kubizek “e precisava de alguém que o ouvisse”. Gustl, que se descrevia como sonhador e calado, tinha em Hitler, opinioso, presunçoso e “detentor da verdade”, o contraste ideal.

Mais do que a música, o tema de conversa de ambos era arte e arquitectura no seu expoente máximo. Melhor, o tema era Adolf como futuro génio artístico. O jovem Hitler extasiava Gustl com as visões sobre si próprio e, vagueando por Linz à noite, preleccionava sobre a necessidade de demolir, remodelar e substituir os edifícios públicos centrais, mostrando esboços dos seus projectos de reconstrução. Em 1906, persuadiu a mãe a custear-lhe uma viagem a Viena, onde passeou como turista e reforçou a ideia de que teria de aperfeiçoar a carreira na Academia de Belas-Artes de Viena.

Esse mundo fantasioso incluía uma jovem que nem sequer o conhecia. Stefanie, requintada menina de Linz simbolizava, para Hitler, ideal a ser admirado à distância e não abordado em pessoa, figura de fantasia que estaria à espera do grande artista para contraírem matrimónio, após o que viveriam numa magnificente villa de cujo projecto ele se encarregaria.

Aos 18 anos, Adolf continuava a vida de indolência sem perspectivas, já com a mãe gravemente doente, com cancro da mama. Fora operada por Bloch, que descreveu Adolf como macilento e de aspecto débil, que “vivia dentro de si próprio”, e preocupado com Klara. Chorou quando Bloch lhe deu as más notícias – a mãe tinha pouca probabilidade de sobreviver – e tratou-a durante a doença, angustiado pelas dores intensas que ela sofria.

Mas, apesar do estado materno cada vez mais débil, não adiou a mudança para Viena. Partiu em 1907, a tempo do exame de admissão à Academia de Belas-Artes. Eram 113 candidatos; só 28 foram bem sucedidos – Hitler não constava deles. Nunca lhe ocorreu que podia chumbar: estivera, escreveu, “tão convencido de que teria êxito que, quando soube que fora rejeitado, senti-me atingido por um raio”. O golpe no seu orgulho foi tão grande que omitiu o fracasso a Gustl e à mãe.

Regressou a casa em Outubro, quando o estado da mãe era irreversível. Profundamente afectado, Adolf não podia ter sido mais extremoso: Paula e Bloch atestaram a dedicação e os cuidados “infatigáveis” que prestou à mãe moribunda, cuja saúde agravou rapidamente no Outono. A 21 de Dezembro de 1907, com 47 anos, Klara faleceu serenamente. Bloch garante jamais ter visto “ninguém tão prostrado de desgosto quanto Adolf Hitler”. Tinha perdido a única pessoa por quem alguma vez sentira afecto genuíno.

A rejeição da Academia e a morte da mãe, em menos de quatro meses, foram um rude golpe duplo para o jovem Hitler. Abruptamente, fora afastado do sonho de uma vida sem esforço até à fama de grande artista, perdendo a única pessoa de quem dependia emocionalmente quase ao mesmo tempo. Apesar da drástica alteração de perspectivas e circunstâncias, quando voltou para Viena, em Fevereiro de 1908, o seu estilo de vida – existência despreocupada num mundo de fantasia pontuado pelo egocentrismo – não se alterou. Todavia, a mudança do provincianismo acolhedor de Linz para o cadilho político e social que era Viena, assinalou uma transição crucial. A vivência na capital austríaca influenciaria decisivamente a formação dos seus preconceitos e fobias.

DN

Posted by Julinho in 15:12:07
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