Friday, October 9, 2009

Nobel da Paz para Barack Obama

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recebeu hoje o Prémio Nobel da Paz “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Obama “acolheu com humildade a selecção do comité”, disse o assessor de imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs.

“O comité deu muita importância à visão e aos esforços de Obama com vista a um mundo sem armas nucleares”, declarou o presidente do comité, Thorbjoern Jagland. “Só muito raramente uma pessoa conseguiu como Obama capturar a atenção do mundo e dar às pessoas esperança para um futuro melhor”, afirmou ainda o comité, avaliando que “a diplomacia [de Obama] é fundada no conceito de que aqueles que lideram o mundo têm de o fazer tendo por base valores e atitudes que são partilhados pela maioria da população mundial”.

Quando o jornalista da agência Reuters comentou com David Axelrod, um dos principais conselheiros de Obama, que muitas pessoas no mundo estavam estupefactas com o anúncio, este respondeu “Como nós”.

Obama fez do desarmamento nuclear topo das prioridades da sua política externa – nomeadamente relançando negociações com a Rússia e fazendo mexer o tabuleiro internacional no sentido de pressionar as duas consensuais “potenciais ameaças” nucleares (Irão e Coreia do Norte) – além de vir a envidar esforços de monta para reactivar o processo de paz no Médio Oriente. No mês passado liderou a histórica reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas em que foi aprovada de forma unânime uma resolução instando os países dotados de armamento nuclear a reduzirem esse poder bélico.

Mas, apesar dos ambiciosos objectivos internacionais, o Presidente norte-americano ainda não conseguiu romper o impasse nas negociações entre israelitas e palestinianos, tão pouco obteve quaisquer resultados no que toca ao polémico programa nuclear iraniano. A par disto tem pela frente muito difíceis escolhas a fazer nos terrenos de guerra em que os Estados Unidos estão envolvidos, à cabeça sobre a forma como conduzir a guerra no Afeganistão.

Dotado de um poder oratório e magnetismo pessoal incomuns, Barack Obama, 48 anos, tem vindo a ganhar ao longo dos quase nove meses em funções como Presidente uma vaga de simpatia e apoio por todo o mundo – apesar de os críticos apontarem dúvidas se existe verdadeira substância nas suas inspiradoras declarações de boas intenções.

Advogado de formação (estudou em Harvard e trabalhou muitos anos na defesa dos direitos cívicos), Obama fez história ao tornar-se no primeiro chefe de Estado negro dos Estados Unidos ao derrotar, a 4 de Novembro de 2008, o candidato republicano John McCain; mas já vinha electrizando o país desde quatro anos antes, quando discursou na convenção dos democratas sobre a confiança em si próprio e o sentimento de inspiração que o norteia. Tornou-se desde logo uma das mais visíveis figuras políticas em Washington, amplamente elogiado pelos media, e publicou dois livros que foram êxitos brutais de vendas, incluindo “The Audacity of Hope”.

Senador desde 2004, eleito pelo Illinois (onde antes cumprira dois mandatos, a partir de 1996, como senador estadual), é filho de um queniano, um pastor de cabras que ganhou uma bolsa de estudo numa universidade do Hawai, e de uma branca norte-americana do Kansas.

Nasceu no Hawai mas viveu também em Jacarta, entre os seis e os dez anos de idade, após a mãe se casar com um indonésio e, depois disso, regressou à terra natal onde cresceu junto com os avós maternos. A narrativa pessoal da história de vida de Obama é muito feita desta experiência de crescimento em ambientes culturais diversos e dos exemplos familiares que reflectem os ideais norte-americanos.

Houve um recorde de 205 nomeações este ano. Entre os nomeados estava o primeiro-ministro do Zimbabwe, Morgan Tsvangirai, e um dissidente chinês. O prémio será entregue em Oslo a 10 de Dezembro, data da morte do seu fundador, o industrial e filantropo sueco Alfred Nobel.

Nobel para Obama foi uma surpresa mas nem todos elogiam a escolha

O mundo reagiu com indisfarçável surpresa à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama. Mas se a maioria diz que a distinção premeia a nova abordagem diplomática seguida pelo Presidente americano, também há quem pense que a escolha do comité norueguês é precipitada e mesmo quem a considere uma “piada de mau gosto”.

O prémio “consagra o regresso da América ao coração de todos os povos do mundo”, escreveu o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, numa das primeiras mensagens recebidas na Casa Branca. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, já congratulou Obama pela distinção, que diz constituir “um incentivo para o Presidente e para todos” a fazer ainda mais pela paz mundial

Já o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirma que a escolha representa “um reconhecimento das expectativas criadas pela determinação do Presidente Obama em trabalhar de perto com os parceiros dos EUA na procura de respostas globais aos desafios globais”.

Ao anunciar a decisão, esta manhã, o presidente do Comité Nobel norueguês explicou que foi dada “muita importância à visão e aos esforços de Obama com vista a um mundo sem armas nucleares”.

E um dos principais implicados no processo, o actual director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Mohamed ElBaradei, declarou-se “absolutamente encantado” com a escolha. Obama, “no poder há menos de um ano”, “deu uma prova de uma liderança extraordinária” ao comprometer-se com a redução dos arsenais nucleares e com “o diálogo como melhor forma de resolver os conflitos”.

A decisão do comité também foi saudada por antigos laureados – entre eles Nelson Mandela, Mikhail Gorbachev e Wangari Maathai –, mas as reacções foram menos positivas noutros pontos do globo, em particular nos países onde estão presentes as forças militares americanas.

Contactado pela Reuters, Zabihullah Mujahid, porta-voz dos taliban afegãos, repudiou a escolha: “Prémio Nobel da Paz? Obama deveria era ter ganho o prémio Nobel por aumentar a violência e matar civis”. E no vizinho Paquistão, alvo de frequentes bombardeamentos da aviação americana contra redutos taliban, o partido islamista Jamaat-e-Islami classificou o prémio de “piada de mau gosto” face à política praticada pelos EUA na região.

E no Iraque, onde ainda permanecem dezenas de milhares de soldados americanos, houve também quem não escondesse o seu desagrado. “Ele não merece o prémio. Há tantos problemas – o Iraque, o Afeganistão – que ele não fez nada para resolver. O homem da mundança não mudou nada”, explicou Issam al-Khazraji, um iraquiano ouvido esta manhã pela Reuters nas ruas de Bagdad.

A resolução do conflito entre israelitas e palestinianos é outra das grandes prioridades da administração americana e de lá vieram reacções distintas. Para o principal negociador da Autoridade Palestiniana, Saeb Erakat, Obama é o homem certo “para conseguir a paz” na região. Já o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, diz que a escolha do comité é, no mínimo, prematura: “Obama tem ainda um longo caminho a percorrer e muito trabalho para fazer antes de merecer este prémio”.

Os dez últimos Nobel da Paz

2009 – Barack Obama, Presidente dos EUA, “pelos seus esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia e a cooperação entre os povos”.

2008 - Martti Ahtisaari, antigo Presidente finlandês, pelos seus esforços na mediação de conflitos em vários continentes, durante mais de três décadas, “que contribuíram para um mundo mais pacífico e para a ‘fraternidade entre as nações’ no espírito de Alfred Nobel”.

2007 - Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, e ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, pelos “esforços para aumentar e propagar um maior conhecimento sobre as alterações climáticas provocadas pelo homem, e por lançar as fundações e medidas necessárias para combater essas mudanças”.

2006 - Muhammad Yunus e o Grameen Bank, do Bangladesh, pelo seu trabalho no combate à pobreza através do micro-crédito, “criando desenvolvimento económico e social a partir da base. A paz duradoura não pode ser conseguida a não ser que grandes grupos populacionais encontrem formas de sair da pobreza”.

2005 – Agência Internacional de Energia Atómica e o seu director, Mohamed ElBaradei, pelo “empenho contra a proliferação de arsenal nuclear e por tentar que a energia nuclear seja usada com fins civis da forma mais segura possível”.

2004 - Wangari Maathai, ambientalista do Quénia, “pelo seu contributo para um desenvolvimento sustentável, democracia e paz”.

2003 - Shirin Ebadi, advogada do Irão, “pelos seus esforços pela democracia e direitos humanos. Centrou-se particularmente na luta pelos direitos das mulheres e das crianças”.

2002 - Jimmy Carter, ex-Presidente dos EUA, devido às “décadas de um esforço incansável para encontrar soluções pacíficas para os conflitos internacionais, para o desenvolvimento da democracia e dos direitos humanos e para a promoção do desenvolvimento económico e social”.

2001 - Kofi Annan, então secretário-geral das Nações Unidas, e ONU, “pelo seu trabalho para um mundo melhor organizado e mais pacífico”.

2000 – Kim Dae-jung, então Presidente sul-coreano, “pelo seu trabalho pela democracia e direitos humanos na Coreia do Sul e no Este Asiático em geral, e pela paz e reconciliação com a Coreia do Norte em particular”.

Fonte: Público

Posted by Julinho at 20:13:49
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