Thursday, October 8, 2009

Angola e Portugal depois das legislativas

Fala-se em abrandamento possível do ritmo das relações mas poucos acreditam que isso possa acontecer

Os resultados das últimas eleições legislativas portuguesas poderão levar a um ligeiro abrandamento no ímpeto com que se tem desenvolvido a relação deste país com Angola. Tal abrandamento poderá durar por dois anos, já que a maioria dos analistas pensa que o novo governo socialista de José Sócrates não deverá aguentar-se por mais tempo.

A não ser que o seu maior rival, o PSD, não se consiga organizar internamente, até lá, e seja do seu interesse manter os socialistas no poder e parar a subida do CDS e do Bloco de Esquerda.

Tendo ganho com maioria relativa, Sócrates terá de governar fazendo equilíbrios, buscando entendimentos ora à sua direita, ora à sua esquerda.

Será uma legislatura em que não se tomarão grandes decisões e em que se legislará o menos possível. Será para gerir os dossiers correntes e fazer charme ao eleitorado.

Angola entra nestas contas pela forma descontinuada como é vista quer pelos políticos como por muitos cidadãos portugueses. Para estes, os cidadãos, Angola de hoje significa dinheiro, a fuga ao desemprego e salários não sonháveis em Portugal. E é fácil verificá-lo. Quase não há português que se cruze com um angolano e que não manifeste a sua vontade de “conhecer” Angola.
Quase não há empresário que não quer colocar os seus produtos em Angola. As exportações portuguesas caíram muito nos seus mercados tradicionais, Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. Angola tem sido o destino que tem fornecido muito do oxigénio que faz crescer algumas áreas da economia portuguesa e isso é reconhecido nos relatórios de contas de bancos e de empresas de construção civil, principalmente. Há, por outro lado, o investimento angolano em Portugal que além de capital tem permitido também a geração de alguns postos de trabalho.

O normal seria esperar que as relações entre os dois países continuassem a correr sem entraves, independentemente das maiorias que governassem Portugal, vistas as coisas no plano económico e social. E vão continuar a correr bem. Mas no plano políticos os sorrisos é que poderão não ser tão abertos como têm sido.

Entraves à esquerda
No actual desenho do Parlamento português, o Partido Socialista só governaria em paz se fizesse um acordo com os dois partidos à sua esquerda.

Bloco de Esquerda (BE) e a Coligação Democrática Unitária (CDU), dominada pelos comunistas. Acontece que o Bloco de Esquerda não quer ouvir falar do governo angolano.

Na última visita de José Eduardo dos Santos a Lisboa, esta formação preferiu não estar presente quando o presidente angolano visitou o Parlamento luso.

Durante a campanha eleitoral, Francisco Louçã, o líder bloquista referiu, por mais de uma vez, ao Governo angolano com palavras muito duras, pondo até em causa a “legitimidade” do dinheiro com que empresas angolanas investem em Portugal.

Para viabilizar as relações com o governo angolano, está visto que não virá grande ajuda da esquerda. O bloco, está longe, de qualquer forma, de um entendimento com os socialistas em Portugal. As formas de olhar para a sociedade e para a economia são diferentes. A CDU tem poucos deputados embora fosse viabilizar qualquer acordo com o governo angolano, tendo em conta as relações históricas entre o PCP e o MPLA. No plano interno é que é impensável um acordo entre CDU e PS.

À direita com cedências
O PS poderia governar com tranquilidade se chegasse a um acordo de governo com o CDS de Paulo Portas.

Não vai acontecer. É quase contranatura e pode, tal acordo, fracturar o próprio PS. Os socialistas mais esquerdistas jamais aceitariam um acordo com Portas. Um tal acordo esvaziaria o PS à esquerda e permitiria o avanço do BE. As consequências eleitorais não seriam nada boas para os socialistas. Mas o CDS e PSD são os que mais facilmente viabilizariam acordos com Angola. O PSD porque tem mantido boas relações com o governo do MPLA, além de ter nas suas esferas vários empresários com interesses em Angola.

O CDS também não colocaria obstáculos de maior. Muitos dos seus membros e ex-membros que dedicaram muito do seu tempo, no passado, a atacar os governantes angolanos são hoje vistos com frequência em Luanda como empresários ou consultores.

Paulo Portas, o líder do CDS que ainda gasta algum do seu tempo a culpar os imigrantes pelos males de Portugal é suficientemente inteligente para perceber que inviabilizar as relações com Angola pode significar a zanga de alguns direitistas cujos negócios têm prosperado no eixo Lisboa-Luanda.

De qualquer forma, para já, não será de esperar que Portas deixe de atacar os imigrantes, mesmo quando alguns médicos cubanos a trabalhar sessenta e quatro horas por semana, em Portugal, ganham apenas trezentos euros (quase o salário mínimo nacional) cerca de um quarto do que ganha qualquer português ajudante de operário em Angola.

Mas a viabilização das políticas de Sócrates para Angola resultaria sempre de acordos em que o PS teria de ceder a algumas exigências do CDS ou do PSD.

No entanto, existem alguns factores que tenderão a deixar as coisas em banho-maria. Portugal está às portas das eleições autárquicas, uma batalha importante que servirá de barómetro e de antecâmara para as eleições legislativas antecipadas ou intercalares que se adivinham no horizonte.

A oposição não permitirá que o PS chegue ao fim do seu mandato, muito menos se surgirem sinais de retoma na economia mundial. Quem não quer governar em bonança? Quem quer que um partido minoritário faça flores que lhe poderão valer uma maioria absoluta nas eleições seguintes?

O compasso eleitoral
O ritmo das relações Angola Portugal fica sem grandes acelerações institucionais por força do calendário eleitoral português. O PS tem apenas uma maioria relativa no parlamento.

O tema Angola é sempre motivo de discussões e divergências em Portugal e, para somar, há as eleições autárquicas já agora em Outubro, o que fará com que Portugal olhe para dentro de si.

E as eleições presidenciais para daqui a cerca de um ano. Neste período eleitoral Angola voltará a ser, certamente, assunto para uma ou outra conversa, principalmente quando se falar de economia e emprego. Cada investimento de vulto feito num e no outro lado merecerá discussão. Mas os empresários e os povos, esses, estarão moucos para os discursos políticos. Há vidas para levar à frente.

Resultados das eleições

As relações entre Portugal e Angola são de excelência e não serão postas em causa, nem vão sofrer nenhuma alteração depois do escrutínio que retirou a maioria parlamentar ao Partido Socialista, segundo um ex-dirigente do Partido Socialista.
Vítor Ramalho, acredita no reforço das relações económicas entre os dois países que considera importantes e que trazem benefícios para os dois povos e para ambos os países.
Os investimentos são importantes para Portugal e para Angola uma porta de entrada na Europa, segundo o dirigente socialista que considera importante todas as sinergias entre os países que falam português num mundo global.

José Kaliengue10:18

Posted by Julinho at 21:24:42
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