Entendendo os Fundos Soberanos
A constituição de um Fundo Soberano em Angola passou a ser o mais recente desafio que as autoridades colocaram nas mãos dos economistas para no futuro gerir com sustentabilidade fundos governamentais de investimento financeiro. Vera Daves, analista de investimentos do Banco Privado Atlântico, dá-nos uma visão sobre os Fundos Soberanos.
No passado dia 20 de Novembro de 2008, o Presidente José Eduardo dos Santos criou uma Comissão Instaladora do Fundo Soberano de Angola (FSA), com vista a definir estratégias de gestão para uma utilização eficiente que maximize a rentabilidade dos recursos internacionais do Estado, focadas na protecção da economia nacional de eventuais efeitos perversos advenientes de ciclos económicos adversos.
Nesta senda, considero relevante fazer uma abordagem sucinta da vertente conceptual, e do funcionamento dos Fundos Soberanos, passando pelas diferentes motivações subjacentes à sua criação e pela actual arquitectura mundial no que diz respeito a este cada vez mais importante instrumento de poupança e investimento dos países.
Conceito
Os fundos de riqueza soberana, na designação inglesa Sovereign Wealth Funds (SWF) são fundos governamentais de investimento financeiro, geridos em separado das reserves oficiais e constituídos geralmente por activos em moeda estrangeira. Porém, prevalece a ausência de consenso entre os especialistas sobre quais fundos governamentais devem ser classificados como fundo de riqueza soberana.
O Departamento do Tesouro norte-americano classifica os SWF de acordo com a origem dos seus recursos, existindo, nesta perspectiva, dois tipos: Commodity, cujos recursos são provenientes de impostos ou receitas sobre exportação de mercadorias – em geral petróleo, gás, metais e minerais. Nao-commodity, cujos recursos são transferidos das reservas oficiais acumuladas a partir de expressivos superáveis em transacções correntes, obtidos com exportações de bens manufacturados. Baseando-se nessa classificação, o Deutsche Bank identifica no seu estudo a existência de quarenta e um SWF em Setembro de 2007, dos quais, vinte e seis do tipo commodity e quinze nao-commodity, com recursos totais sob gestão de 3,2 triliões de dólares.
Desse total de quarenta e um fundos soberanos, apenas nove são propriedade de governos de países industrializados: Austrália, Canadá, Irlanda, Estados Unidos, Noruega e Nova Zelândia, sendo a esmagadora maioria pertencente a economias emergentes.
O Fundo Monetário Internacional, por sua vez, classifica os fundos soberanos a partir dos seus objectivos principais. Por esse critério, estaríamos diante de cinco tipos de SWF, nomeadamente:
- Fundos de estabilização, constituídos por países com grandes reservas de recursos naturais, visando proteger os seus orçamentos e as suas economias oscilações dos preços dos produtos primários (sobretudo petróleo e gás). Ex.: Noruega;
- Fundos de poupança, constituídos por países ricos em recursos naturais nao-renováveis com o objectivo de compartilhar a riqueza entre as gerações. Ex.: Brasil e Noruega;
- Fundos de investimento, constituídos como instituições separadas com vista a seguirem políticas de investimento com retorno elevado. Ex.: Brasil;
- Fundos de desenvolvimento, que alocam recursos para financiamento de projectos socioeconómicos prioritários – investimentos em infra-estruturas e/ou em projectos agro-industriais. Ex.: Fundo Nacional de Desenvolvimento (FND) gerido pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA);
- Fundos de reserva para aposentação, constituídos para o financiamento futuro de passivos fiscais de longo prazo associados aos sistemas oficiais de pensões e aposentação.
Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) define os fundos soberanos come sendo “um conjunto de activos de propriedade e administrado directa ou indirecta de governos para alcançar objectivos nacionais variados, cujos recursos provêm das reservas internacionais, da comercialização de recursos naturais escassos – em geral, petróleo, gás, metais e minerais – e de receitas tributárias, estando a sua maior parte aplicada em activos estrangeiros”. Este conceito representa uma fusão dos dois.
Conceitos anteriores, com a particularidade de excluir os fundos de reserva para aposentação, criados e geridos directamente pelos governos (Sovereign Pension Reserve Funds, SPRF) em separado do sistema de segurança social, como o norueguês Govemment Pension Fund Global.
Contexto e Origem
Relativamente recentes na economia, os Fundos Soberanos foram implementados por países que tem grande volume de receitas em moeda estrangeira, por serem grandes exportadores de commodities energéticas, como a Noruega e Angola; ou que tem superávits fiscais muito elevados, como Singapura. O objectivo central é reservar recursos para um futuro em que não se possa mais contar com excedentes de poupança. Os recursos dos fundos podem ser aplicados no financiamento de empresas nacionais no exterior ou na aquisição de obrigações e/ou acções em empresas estrangeiras, com motivações financeiras e estratégicas subjacentes.
O primeiro fundo soberano foi criado em 1953 pelo Kuwait. Até 1990, existiam quinze fundos soberanos, número que triplicou nos últimos anos, chegando a quarenta e seis, pertencentes a trinta e cinco nações Os fundos nasceram a partir da lógica de globalização financeira. As economias foram-se internacionalizando e os mercados mundiais viveram um bom momento na década de 90, propiciando a muitos países o aumento das suas reservas internacionais líquidas, maioritariamente em dólares norte-americanos.
As reservas cambiais dos países cresceram de um total de US$ 2 triliões no ano 1998, para cerca de US$ 7 triliões em 2007, sendo que, destes US$ 7 triliões, mais de US$ 3,9 triliões pertencem aos países em desenvolvimento. A China, com US$ 1,3 trilião, é o país que tem o maior volume de reservas, sendo ainda de registar a Rússia, com US$ 416 biliões, a Coreia do Sul, com US$ 255 biliões e a Índia com US$ 230 biliões.
Essas reservas são maioritariamente denominadas em dólares norte-americanos, cuja parcela representa cerca de 60% do total. Estimativas do FMI, divulgadas no World Economic Outlook (WEO), estimam que em 2009, as reservas internacionais dos países em desenvolvimento atingirão o total de US$ 6,3 triliões. A China, cuja estratégia de intervenção no mercado cambial conduziu a um rápido acumular de reservas (crescimento médio anual de 35% na presente década), responderá, de acordo com as projecções, por 38% do total (aproximadamente US$ 2,4 triliões). Essas estimativas indicam o elevado potencial de expansão dos fundos de riqueza soberana.
Dimensão e Composição dos Fundos
O WEO disponibiliza informações sobre o número e valores acumulados pelos fundos soberanos bem como sobre a estrutura das suas aplicações (denominação das moedas). Nos anos decorridos desde o início da presente década, o número de fundos aumentou significativamente, principalmente, graças ao aumento exponencial dos preços do petróleo – a principal fonte de rendimentos dos vários Fundos.
Importa também salientar o asset allocation, em moedas, da riqueza dos fundos. Repare-se, por exemplo, que o Fundo de Pensões da Noruega tem cerca de 33,3% do seu valor aplicado em dólares (USD), 33,3% em euros (EUR) e os restantes 33,3% em outras moedas, nomeadamente em libras (GBP) e em ienes (JPY). Esta estrutura prende-se com a estratégia de gestão do Fundo estritamente ligada aos compromissos inerentes à estrutura do comércio externo do país.
Ranking Mundial de Fundos Soberanos
Entre os fundos soberanos mais importantes do mundo, figuram Dubai, Noruega, Qatar, Singapura e China, este último criado em 2007 com recursos avaliados em 200 biliões de dólares.
O Abu Dhabi Investment Authority, Fundo Soberano do Dubai, possui um património estimado em 875 biliões de dólares, não obstante nunca terem sido divulgados dados oficiais. Seguem-se os Fundos Soberanos da Noruega e de Singapura, ambos com mais de 300 biliões de dólares. Estima-se que os activos totais geridos pelos mesmos estejam em torno de 2,3 triliões de dólares.
Políticas de Investimento
Os Fundos Soberanos são actualmente muito mediatizados, dado o destino dos seus recursos, muitos deles para instituições financeiras que, após o início do actual terramoto no sistema financeiro internacional, mostram grandes dificuldades de liquidez e de capitalização. O Sector financeiro, exposto e fragilizado pela crise, tornou-se em 2008 presa fácil para os fundos sobrarmos. O Citigroup, por exemplo, recebeu de Abu Dhabi 7,5 bilhões de dólares; o suíço UBS foi apoiado pelo Temasek de Singapura.
Não só o sector financeiro foi alvo de grandes aquisições por parte dos Fundos Soberanos. A indústria aeronáutica também tem sido um importante destino de operações de compra de fundos soberanos, nomeadamente a entrada do Russo VTB no capital da European Aerospace and Defense Systems (produtora do Airbus), do Kuweit Investment Authority no grupo automóvel alemão Daimler (fabricante da Mercedes), e da Qatar Investment Authority no grupo francês Lagardere. Na Itália, a Piaggio Aero Industries e já detida em 35% pelo fundo Mubadala dos Emirados Árabes Unidos.
O sector da energia afigura-se igualmente como uma aposta, sobretudo dos fundos chineses e dos russos, com os primeiros a investirem, por exemplo, no Brasil, e os segundos a tentarem na Europa, embora tenham falhado a abordagem com a Inglaterra.
Potencial de Crescimento
Embora o volume de activos dos fundos soberanos totalizem a dobro do sector de hedge funds dos Estados Unidos (US$ 1,4 triliões), isso representa apenas 5% dos activos financeiros globais em posse de investidores privados, tais como fundos de pensões, fundos mútuos de investimentos e seguradoras, e 2% do mercado global de capitais. Projecções realizadas pelo Morgan Stanley demonstram que, caso se mantenha a taxa de crescimento anual de 13% dos últimos 10 anos, os SWF deterão nos próximos 5 anos actives avaliados em US$ 12 triliões, o que correspondera a 5% da riqueza financeira mundial.
Receios do mercado
O crescimento e o potencial de investimento dos fundos soberanos, em particular dos países emergentes, têm inspirado preocupação aos países mais ricos, em particular os EUA. Os SWF’s da China e da Arábia Saudita têm adquirido participações em bancos e grandes empresas norte-americanas (o Fundo Soberano China Investment Company injectou recentemente 3 biliões de dólares no fundo de investimento norte-americano Blackstone).
Para o FMI, o aumento em volume de activos e em número destes fundos merece atenção reforçada, diante dos eventuais efeitos nefastos que poderão ter sobre o mercado financeiro global.
Argumenta-se também que, pelo estatuto público muito específico que têm, escapam às regras de transparência normalmente exigidas aos mercados financeiros globais, sendo que as informações obtidas sobre os mesmos dependem da vontade dos seus gestores em concedê-las. Identificam-se fundos com um elevado grau de transparência, como é o caso do de Singapura, da Noruega e do Canadá. Contudo, existem outros, em que não existe disponibilização periódica ao mercado da situação patrimonial, capacidade financeira, ou volume de investimentos efectuados.
O Bundesbank garante que não há até agora nenhum indício de que os Fundos Soberanos tenham fins políticos ao investir no exterior. O instituto bancário alemão, por sua vez, ressalta que os países que possuem Fundos Estatais estabeleceram recentemente princípios país guiar as suas actividades.
Não obstante isso, os países mais industrializados (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Franca, Grã-Bretanha, Itália e Japão), reunidos no G7, pediram o estabelecimento de um código de boas práticas para estes fundos, a fim de fortalecer principalmente a sua “transparência e previsibilidade”.
Grande parte dos especialistas em fundos soberanos defende que as mesmos se inscrevem numa política de recuperação de potência dos países emergentes, que evoluem de uma situação em que pediam dinheiro para passarem a concedê-lo, procedendo assim a uma real inversão de relações de poder e interesses nesta nova arquitectura económica global.
Vera Daves, Analista de Investimentos do Banco Privado Atlântico
A Angola Telecom deu início com a segunda fase do programa de instalação do “backbone”, em fibra óptica terrestre, no âmbito dos projectos denominados “Região Oeste/Credit Oil” e “Região Este” em todo o território nacional.
O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Franco Frattini, disse ontem, em Luanda, que a África tem um papel central durante a presidência da Itália do “G8”, o grupo dos países mais industrializados do mundo mais a Rússia.
Muahammar Kadhafi é desde ontem o presidente da União Africana. Eleito ontem na sessão de abertura da XII Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que decorre em Addis Abeba, Etiópia, o líder líbio sucede no cargo o Presidente da República Unida da Tanzânia, Jakaya Mrisho Kikwete.
A ausência de Abel Chivukuvuku, dos holofotes políticos e do convívio do seu circulo de amigos é associada a justificações acadêmicas. Passou a quadra festiva na cidade de Joanesburgo, África do sul preparando a tese do grau acadêmico de doutoramento que defende pela (University of South Africa) UNISA, a instituição sul africana conhecida pelo seu método de ensino a distancia.