José Meirelles e Alexandre Ribeiro de Almeida, da Agência Lusa **
A ausência de Angola nas operações de paz da União Africana (UA) indicia “falta de visão”, em contraste com o seu poderio militar e a “aparente” pretensão de se tornar numa potência regional.
Esta avaliação é do coronel de Infantaria português Nuno Pires da Silva, 47 anos, há um semestre oficial de ligação da Aliança Atlântica (NATO) junto da União Africana (UA), em Addis Abeba, onde o apoio ocidental se tem vindo a desenvolver em várias fases desde 2005.
“Angola podia olhar para a Nigéria - entre outros países-membros da UA -, que pela activa participação nas operações de paz consegue manter balanceadas as suas forças políticas internas e, ao mesmo tempo, modernizar as Forças Armadas através dos apoios recebidos da comunidade internacional”, declarou em entrevista à Agência Lusa o veterano militar português, com 30 anos de carreira e missões internacionais em seis países, três dos quais africanos: Quénia, Somália e Etiópia.
Pires da Silva lamentou que os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) estejam “muito voltados para si próprios”, e mais Angola, porque “as operações de paz ajudam a projectar os Estados que nelas participam”, justificou.
No caso particular de Angola, “é uma grande perda, para a comunidade internacional e para o próprio país, muito focalizado na vertente regional pelo envolvimento simultâneo nos tabuleiros da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), mas não no da UA”, constatou.
Quanto a Moçambique - adiantou -, é de “reconhecer” a sua contribuição em Darfur (oeste do Sudão), apesar de que “o país não tira todo o partido do seu potencial”.
Os outros PALOP - Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Cabo Verde -, dada a dimensão, “não têm expressão”.
O apoio da NATO à UA está centrado essencialmente na operacionalidade das Forças Africanas de Prevenção (ASF, sigla em inglês) em 2010, que regista um atraso por problemas estruturais da UA devidos a escassez de recursos e falta de qualificação humana, instrumentos fundamentais para prevenir e gerir os conflitos no continente.
“A UA quer ter as Forças Africanas de Prevenção (African Stand-by Forces-ASF) operacionais em 2010, mas não vai ser fácil devido a atrasos que se devem sobretudo à escassez de recursos financeiros e materiais, por insuficiência de colaboração” dos 53 Estados-membros, afirmou o coronel português
Pires da Silva disse ser ao nível do “muito burocratizado” Estado-Maior da jovem organização africana - fundada em 2002 - que se colocam os maiores desafios, desde o recrutamento de efectivos à altura das funções a desempenhar, até à obtenção dos meios para lhes pagar e para dirimir os conflitos.
O “flexível” gabinete aliado - com um mínimo de dois elementos, passíveis de chegar à dezena, de acordo com as competências solicitadas pelos africanos - actua no curto prazo no apoio às operações em curso e no longo prazo para a sua prevenção e resolução, incumbida às futuras ASF, que terão uma capacidade de resposta rápida semelhante à das Forças de Reacção da NATO (NRF, sigla em inglês).
O transporte de tropas da Missão Africana em Darfur, Sudão (AMIS) - num total de 31.000 - mais 6.000 da União Europeia (UE), foi apoiado pela NATO até Dezembro de 2007.
Desde Agosto daquele mesmo ano, a NATO dá assistência à Missão Africana na Somália (AMISOM), presentemente com 2.500 homens (1.600 do Uganda e 900 do Burundi), número muito aquém dos 8.000 necessários, embora reforços de voluntários militares e civis ainda possam vir do Gana, Nigéria e Ruanda, indicou Pires da Silva.
Nos últimos três anos - segundo o coronel português - o apoio da NATO à UA envolveu mais de 250 militares e civis do Comando Conjunto de Lisboa, 54 dos quais estiveram em África.
“A NATO quer efectivamente ajudar a UA a ter uma força (ASF) capaz de prevenir e resolver os problemas no continente”, garantiu, lamentando a falta de recursos financeiros e de quadros qualificados na organização africana.
“Os aliados não dão o que os africanos precisam, apenas o que pedem, certamente aquém das suas necessidades”, explicou, acrescentando: “É dramático, porque carecem de apoio e são incapazes de o gerir”.
Neste ponto, o coronel português deixou um aviso: “Devido a antecedentes históricos que se prendem com o antigo colonialismo, por vezes os africanos duvidam das boas intenções dos países ocidentais”.
“Temos de os ajudar sem eles acharem que lhes estamos a impor a solução”, concluiu, aproveitando para denunciar uma “mentalidade política” ocidental que “tende a apoiar o que pensa dever ser apoiado, sem ter em conta as realidades africanas”.
Pires da Silva, além das missões em África, esteve envolvido na preparação das tropas aliadas destacadas no Kosovo (KFOR, 1999) e europeias Bósnia-Herzegovina (EUFOR, 2007), tendo comandado um batalhão de tropas pára-quedistas e fuzileiros encarregue da segurança em Timor-Leste, entre 2002 e 2003.
Lusa/fim