Tsvangirai abandona corrida à presidência
O candidato da Oposição à presidência do Zimbabué justificou a desistência da corrida eleitoral pela violência exercida sobre os seus simpatizantes pelos apoiantes de Mugabe. Apelou às Nações Unidas porem fim ao genocídio que considera estar em curso no país.
“Exortamos a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, a União Africana e as Nações Unidas a intervir para fazer parar o genocídio”, declarou.
“Nós, no MDC (Movimento para a Mudança Democrática) decidimos que não vamos mais participar neste esquema ilegal e violento de processo eleitoral”, afirmou em conferência de imprensa na capital do país. ‘O povo do Zimbabué mostrou a sua bravura”, afirmou o candidato vitorioso nas eleições de 29 de Março, que não alcançou a maioria necessária para impedir a convocação de uma segunda volta. No mesmo acto eleitoral, o partido de Robert Mugabe perdeu a Câmara dos Deputados.
Morgan Tsvangirai desfiou números: “200 mil pessoas foram deslocadas, mais de 86 simpatizantes do MDC foram mortos, mais de 20 mil habitações foram queimadas e mais de 10 mil pessoas ficaram feridas numa orgia de violência”.
O candidato do MDC concluiu que “tendo em conta estas circunstâncias, consideramos impossível a realização de uma eleição que reflicta a vontade do povo”.
Este comunicado ocorreu após jovens apoiantes de Mugabe, que está na presidência do Zimbabué há 28 anos, armados com barras de ferro e outras armas, terem invadido o estádio para onde estava marcado o comício e atacado simpatizantes de Tsvangirai e jornalistas. Obrigaram ainda as equipas de observadores eleitorais a abandonarem o local.
A campanha atribulada de Tsvangirai
Morgan Tsvangirai voltou ao Zimbabué a 24 de Maio, para dar início à campanha para a segunda volta à corrida presidencial. O candidato e os principais líderes do MDC reclamaram por diversas vezes vitória na primeira volta das eleições presidenciais.
Tem afirmado repetidamente que está em curso uma operação patrocinada pelo executivo para manter Mugabe na presidência do Zimbabué e para dizimar as estruturas da oposição antes do escrutínio marcado para final de Junho.
A imprensa controlada pelo Estado rejeitou publicar os anúncios do MDC. Em menos de um mês, Tsvangirai foi detido cinco vezes pela polícia, sempre quando participava em actos de campanha eleitoral.
O número dois do MDC, Tendai Butu, encontra-se detido até 7 de Julho. É acusado de traição e outras ofensas, o que lhe poderá valer a pena de morte.
Mugabe nega acusações de Tsvangirai
Na passada sexta-feira, Robert Mugabe afirmava que “só Deus” poderia retirá-lo do poder que ocupa desde 1980, após a independência do país. O actual presidente acusa o seu opositor de ser uma marioneta ao serviço dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
O presidente, de 84 anos, atribui culpas à Oposição pela violência e rejeita responsabilizar a polícia.
O porta-voz da ZANU-PF e ministro da Justiça já reagiu à decisão de Tsvangirai. Segundo Patrick Chinamasa, o MDC “não tinha outra opção” além da desistência para “evitar a humilhação de uma derrota” na sexta-feira.
Chinasa alertou que para formalizar a desistência, Tsvangirai deverá escrever à Comissão Eleitoral do Zimbabué “anunciando que se vai retirar da corrida, evento em existirá apenas um candidato, o que significa que não haverá escrutínio. Se não o fizer, o escrutínio vai realizar-se”.
Líderes africanos preocupados com situação no Zimbabué
Cada vez mais líderes africanos, entre os quais o presidente angolano José Eduardo dos Santos, têm apelado a Robert Mugabe para que permita que o processo eleitoral decorra com tolerância e respeito pelas regras democráticas.
O presidente da África do Sul disse ter esperança que continuem as negociações para resolver as questões políticas no Zimbabué. “O próprio Tsvangirai diz que não fecha totalmente a porta a negociações”, comentou Thabo Mbeki.
Casa Branca pede fim de actos de violência
“O Governo do Zimbabué e os seus vândalos devem parar já com a violência”, delcarou uma assistente para a comunicação social do Executivo norte-americano.
“Todos os partidos devem poder participar num processo eleitoral legítimo e não estarem sujeitos a intimidações ou acções ilegais do Governo, milícias armadas e de auto-intitulados veteranos de guerra”, afirmou Carlton Carroll.
RTP
Como é que um oficial de um dos regimentos de elite de Sua Majestade britânica e comandante de um destacamento de operações especiais está, em Junho de 2008, no banco dos réus num tribunal de Malabo, capital da Guiné-Equatorial, a ser julgado por tentativa de golpe de Estado?
Pela mesma razão que participou, em 2002, num filme sobre o massacre do Domingo Sangrento na Irlanda do Norte. Por uma estranha ambição de aventura, ousadia e um olhar talvez romântico sobre a profissão das armas. O que pode tornar-se temerário até à imprevidência.
E uma tentação de quem faz da sua vida a profissão das armas é a dos conflitos malditos, travados em lugares incógnitos por combatentes sem rosto: os mercenários. Apresentado por alguns amigos como misterioso, discreto, a expressão impassível de um jogador de póquer, Simon Mann quis jogar este jogo. Fez a opção natural para quem nasceu sem ter de se preocupar com nada.
Filho de um empresário de sucesso e famoso pelos seus feitos num dos desportos nacionais, o cricket, estudou numa das escolas da elite, Eton, e inscreveu-se na Academia de Sandhurst, o caminho certo para desenvolver laços com personalidades indispensáveis para uma carreira de sucesso. Nas armas ou nos negócios.
Tudo indicava que seria nas armas. Nomeado oficial nos Guardas Escoceses (The Scots Guards), um regimento de prestígio e história, não ficará aqui muito tempo. Faz provas para o corpo de operações especiais do exército, o Special Air Service (SAS), onde permanecerá até 1981. Uma década depois, o comandante das forças britânicas na primeira Guerra do Golfo, general Peter de la Billière, chamou-o para participar na campanha. No final, é um dos fundadores de uma empresa de segurança que não vai passar despercebida, Executive Outcomes (EO).
Desmantelada em 1998, a EO adquiriu especial protagonismo no conflito angolano e noutros pontos de África, em particular em países com importantes jazidas de minérios. Esta coincidência leva a alegações de envolvimento com a empresa de diamantes sul-africana De Beers, o que foi desmentido por ambas as partes. Para a história da época e dos conflitos em África, está documentada a estratégia da EO em garantir num conflito, em primeiro lugar, a segurança das áreas ricas em diamantes e em petróleo, como sucedeu em Angola. Na primeira metade dos anos 90, este país constituiu a sua principal frente de operações. Uma actuação que vai impor uma série de reveses à UNITA e privar este movimento do controlo de várias áreas diamantíferas.
Para entender o recente percurso de Simon Mann, recorde-se que são os sucessos - e respectiva publicidade - da EO, que vão forçar o Governo sul-africano a actuar em 1998, obrigando a empresa a cessar actividade. A vasta rede de contactos e actividades da EO vai dissolver-se num universo de novas empresas e de efectivos em busca de novas missões. Aparentemente, Mann, ainda na EO, funda uma nova “empresa militar privada”, a Sandline International, com sede nas Baamas. A definição das suas actividades é todo um cartão de visita: “fornecer aos nossos clientes os melhores serviços militares para os ajudar a resolver rapidamente as questões de segurança, com o máximo de eficácia e o mínimo de impacto” - pode ler-se na sua página na Internet, quatro anos após a empresa ter sido desactivada.
“Quem ousa, ganha”, a divisa do SAS, continuou a servir de inspiração a Mann, largos anos depois de deixar as operações especiais. No universo turvo da compra e venda de golpes de Estado em países de regimes autocráticos, o antigo responsável da EO e da Sandline aceita uma encomenda estranha, em condições pouco claras - há quem diga que nesta área se perde a noção da realidade à medida que se avança nos anos. Sucedeu com Bob Denard, estaria a suceder com Mann, sugeriu “alguém que sabia o que estava a passar-se”, escrevia quarta-feira o The Daily Telegraph.
Segundo alegações feitas esta semana no julgamento, Mann aceita afastar o Presidente Teodoro Obiang Nguema em 2004. Uma operação que, repetiu-o quinta-feira, tinha o acordo tácito de Estados Unidos, Espanha e África do Sul. No golpe estariam interessadas várias companhias petrolíferas internacionais.
Washington, Madrid e Pretória desmentem tudo o que Mann afirmou em tribunal.
Mann foi contactado por Mark Thatcher, filho da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a funcionar como intermediário de Severo Moto, o histórico opositor de Nguema, no poder desde 1979, que pretendia destronar este. Os fundos para a operação viriam de um outro tipo de personagem comum nestes círculos: o milionário enigmático. Ely Calil, um magnata do petróleo, filho de pai libanês e mãe nigeriana. Movendo-se na sombra, a vasta fortuna de Calil seria a fonte de financiamento: 15 milhões de dólares, segundo documentos exibidos no julgamento.
O plano era chegar a Malabo, neutralizar os fiéis de Nguema, esperar umas horas até Soto, que habitualmente reside em Espanha (está hoje preso em Madrid por tráfico de armas), ser levado por Thatcher para as Canárias, de onde seguiria para o Mali e daqui para a Guiné Equatorial.
Mann reúne um grupo de 70 homens e viaja de avião para África. Desembarca em Harare, capital do Zimbabwe, onde planeara adquirir armas. O regime de Mugabe não terá tido dúvidas para onde devia ir a sua lealdade. Por isso, quatro anos depois, Mann está sentado num tribunal em Malabo. Pela frente, uma pena de 30 de anos de prisão.
DN
O antigo presidente moçambicano, Joaquim Chissano, criticou os Estados Unidos e a Europa por se concentrarem no actual presidente da República do Zimbabwe e da ZANU-FP, Robert Mugabe, e não no sofrimento do seu povo, conforme reporta alguma imprensa em Joanesburgo.
Chissano é citado a dizer que “temos que pensar no povo que está a sofrer com o embargo mas o que verifico é que tanto os americanos como os europeus estão extremamente concentrados em Mugabe”.
O antigo chefe de Estado moçambicano e vencedor da primeira edição do «Prémio Mo Ibraimo» disse que mesmo que Mugabe perca a segunda volta da eleições presidenciais para o seu rival Morgam Tsivangirai, isso em si não será, de acordo com o seu ponto de vista tão fulcral para o restabelecimento da economia Zimbabweana, que se encontra mergulhada num caos sem precedentes.
“África, assim como o resto do mundo tem que assegurar que se realizem eleições livres e justas e que os partidos aceitem o escrutínio destas” disse Chissano e acrescentou: “Para mim o mais importante é delinear um novo prelúdio para a presente situação económica e não a retirada ou não de Mugabe”.
Chissano, também ele presidente honorário do partido Frelimo – partido a que se juntou graças as conexões de Adelino Guambe, fundador da UDENAMO que lhe pagou a passagem de Paris a Dar-es-Salaam, em 1963, de acordo com um documento do próprio Chissano, intitulado a génese da criação da Frelimo – é um dos 40 líderes que subscreveram com o antigo Secretario Geral das Nações Unidas uma carta aberta publicada este mês em que se revelaram deveras “preocupados com o nível de intimidação e violência que se verifica no Zimbabwe”.
Joaquim Chissano é citado ainda a dizer que “o processo eleitoral todavia findou e não posso dizer se Mugabe deve-se retirar ou não. É preciso que haja espaço para o diálogo”.
“A mudança imposta através da pressão é de pouca duração. Apesar da pressão exercida sobre o Zimbabwe, a situação piorou”. Entretanto dizer ainda que o governo da Áustria ameaçou impor novas sanções contra o Zimbabwe, na eventualidade de Mugabe vencer a segunda volta das presidenciais.
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