Sunday, June 1, 2008

África do Sul ignorou avisos de paises africanos sobre ataques xenófobos


África do Sul - O Governo Sul Africano terá ignorado avisos de sectores externos que levá-lo-ia a prevenir-se de eventuais incidentes relacionados aos ataques  xenófobos responsáveis pela morte de cerca de 50 pessoas durante as ultimas semanas neste pais

 Durante um “briefing” com o Ministro da Segurança Charles Ngakula, realizado na sexta feira do dia 23, um grupo de embaixadores africanos acreditados em Pretoria,  revelou  que em Abril do mês passado teriam enviado uma carta alertando o Ministério dos Negócios Estrangeiro da África do Sul.


Ronnie Kasrils , o Ministro da inteligência sul africana que um dia antes deste “breafing” foi anfitrião, na cidade do Cabo, da  5ª conferência do Comité dos Serviços de Informações e Segurança de África (CISSA, sigla em inglês), admitiu a imprensa que estavam conscientes de  que uma corrente de  sentimentos anti- imigrantes iria causar uma explosão de violência. Kasrils reconheceu que foram surpreendidos e relatou que por trás desses incidentes há um grupo de elementos oportunistas que tem estado a manipular grupos locais.


O Governo sul africano tem sido alvo  de criticas face a passividade em lidar com as ondas de violações e ataques xenófobos. Na altura em que África do Sul carecia de um forte apelo, as três principais figuras da nação tinha “abandonado” o pais. Thabo Mbeki havia se ausentado para uma cimeira na Tanzânia. A Vice presidente  Phumzile Mlambo Ngcuka estava em missão de serviço na Nigéria, o líder do ANC Jacob Zuma de malas feitas para férias na Europa. O trio foi forçado a não se ausentar do pais e a actuar com procedimentos “mais práticos” para desencorajar os enfurecidos populares que cometiam agressão contra os estrangeiros. De regresso dispersaram-se pelo interior tendo a  Vice Presidente e o líder do ANC discursado em algumas áreas rurais. O Presidente Thabo Mbeki acabou por fazer  um pronunciamento a nação, no domingo passado, condenando a violência que considerou  uma vergonha  para a  África do Sul: “Nunca, desde o nascimento da nossa democracia, havíamos sido testemunhas de semelhante barbaridade. Devemos considerar os acontecimentos das últimas duas semanas uma vergonha absoluta”.


Para muitos o discurso do Presidente tardou demasiado. O analista  político Sipho Seepe pelo menos é um dos que assim pensa. Para ele  “Foi um grande discurso, porém tardio”. O analista entende que “O desafio não consiste em condenar a violência. Consiste em tomar medidas imediatamente quando começa o tumulto no país”.

Para Kgalema Motlanthe, vice-presidente do ANC, citado pela AFP, a miséria explica a violência. “Quando muitas pessoas vivem em condições sórdidas, basta um incidente para que tudo exploda”, declarou, denunciando a reação tardia das autoridades “que incentivou outras pessoas que  vivem em condições semelhantes a perpetrarem ataques idênticos”.


Motlanthe admitiu que os sul-africanos, “que não tiveram acesso à educação” por causa das injustiças que vigoravam na época do apartheid, que acabou em 1994, têm inveja dos estrangeiros, sobretudo dos zimbabuanos mais qualificados.


Aproveitamento político dos adversários  de Mbeki


Os detratores  de Thabo Mbeki emitiram sinais nas ultimas semanas indicando que não estão adormecidos. Aproveitaram o cenário actual para pedir a cabeça do Presidente. Num comício – jantar o líder do partido comunista sul africano havia apelado  a Mbeki que deixasse o poder. Semanas antes, o empresário Tokyio Sexwale membro do comitê executivo do ANC fez o mesmo. Outros quadros de bases não quiseram perder a carruagem da critica. Entretanto o Vice Presidente do ANC Kgalema Montlanthe reagiu dizendo que a remoção de Thabo Mbeki, a frente dos destinos da nação, não faz parte da agenda do seu partido.

Se antes as razões  evocadas era o desencontro da coabitação dos dois centro de poder que o pais enfrentavam, hoje os detratores de Mbeki apresentam  um discurso direcionado a inabilidade do Governo em lidar com as políticas de proteção aos imigrantes.


Tinyko Malukele um conhecido analista político desdramatizou os pedidos de renuncia a Mbeki dizendo que esses apelos  vem de uma minoria frustrada pela aparente falta de cooperação por parte do mais alto magistrado da nação. Para Malukele o Presidente só pode ser removido por uma resolução adoptada pela Assembléia Nacional em caso de serias violações a constituição, falta de conducta ou inabilidade de exercer as suas funções. O analista resfria os discursos alertando ser um assunto de competência do parlamento e que  não pode ser o ANC a demitir o Presidente Thabo Mbeki.


Preocupação das autoridades angolanas


Indicadores apontam a preocupação das autoridades angolanas ao mais alto nível. A emissora Voz da América (VOA) avança com informações, esta semana, que dão conta de uma possível deslocação a África do Sul do Ministro João Miranda de que será portador de uma  mensagem do Presidente José  Eduardo dos Santos ao seu homologo sul africano Thabo Mbeki. O teor da missiva segundo aquela estação radiofônica, devera reflectir  preocupação das autoridades angolanas face a onda de violência provocada pelos ataques xenófobos. Enquanto isso as missões consulares angolanas em Joanesburgo, Pretoria e Cape Town mantem as portas abertas ao compatriotas que manifestam interesse de regressar a Angola.


Do lado da comunidade, alguns estudantes angolanos em Joanesburgo admitem que não foram a escola a semana passada devido ao medo. Os que estão no internato do Bishop College não saíram para o passeio com os amigos ou familiares no fim de semana após aos incidentes. Um angolano entrevistado pela SABC, a Televisão sul na cidade do Cabo disse que já não se sentem “bem vindos” na África do Sul.  Os aviões da transportadora TAAG tem ido para a capital de Angola lotados. O mesmo já não se pode falar da rota Luanda- Joanesburgo.  Ao desembarcar, Domingo passado, no aeroporto internacional de Joanesburgo, o editor de cultura do Jornal Folha 8 Nvunda Tonet observou que o vôo o transportou vinha vazio. A sua tese é afirmada por mais compatriotas.


Fonte: Club-k.net

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Memórias: Da queda do Apartheid a Xenofobia (I) – José Gama


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África do Sul - Três anos tinham se passado desde a queda  do regime do apartheid. As marcas das políticas segregarias eram ainda visíveis. Nas escolas os jovens negros rejeitavam estudar o africaans  sob alegação de ser uma língua de gente  que maltratou os seus pais. Os professores brancos desencorajavam-nos a realizar o sonho de  ir a Universidade estudar  cursos como medicina ou engenharia.


Éramos angolanos que chegávamos para fins acadêmicos. Os nossos encarregados tinham como preferência, para nos, os melhores colégios  que obviamente eram os mais caros. Estávamos matriculados no “Capital College”, uma escola bastante conhecida que ate pouco tempo não era freqüentada por negros. No primeiro semestre, os alunos brancos solicitaram a direcção da escola para tomar medidas porque não suportavam a convivência com os que não fossem da sua cor. O Apartheid já estava ilegalizado e não nos podiam dizer que não deveríamos estar misturados com os estudantes brancos como também não podiam nos despedir porque eramos clientes que não viam, em nos, problemas de atraso de propinas.
 
Na manha de uma terça feira, fomos chamados para uma reunião em que seriamos informados que a direcção  da escola estava preocupada com o nosso fraco domínio da língua inglesa e que uma reprovação em massa poderia afectar o prestigio da escola uma vez que as melhores escolas são as que mais aprovam os alunos. A escola informou-nos que como medida de prevenção e para o nosso bem passaríamos a ter, no período da tarde, uma nova cadeira que se chamava “extra Inglês” e para o efeito seriamos doravante agrupados de acordo com o domínio da língua. Isto é  Passou haver salas  para os que falavam fluentemente o inglês que neste caso eram os brancos e sala para os restantes que eram a maioria dos negros angolanos e alguns estudantes chineses.


Na sala de aulas não tínhamos problemas com os professores.  mostravam-se amáveis para conosco mas  viriam a ter alguma desilusão. Na  recepção da directoria havia um telefone disponível aos alunos que desejassem comunicar-se com os pais  na hora da saída ou em outra eventualidade. Nos os angolanos víamos aquilo uma oportunidade impar. A escola teve de tirar dali o telefone porque as ultimas contas apresentavam valores altíssimo com registro de chamadas para Angola, Portugal e resto do mundo, obviamente que eram os angolanos.  Era uma practica que fazíamos  na sala de protocolo do aeroporto internacional de Joanesburgo cujo telefone publico era  grátis para os viajantes de classe executiva.


Passado algum tempo os nossos colegas de ton de pele diferente a nossa passaram a ter melhor impressão sobre nos. Éramos negros que íamos para escola de táxi, usávamos trajes de marca. Sempre que saíssem novas sapatilhas da Nike, o angolano trazia dia seguinte nos  pés. Nas lojas quando os brancos fossem comprar algo, o gerente dizia que os números limitados tinham sido comprados por angolanos. Os colegas brancos viam em nos negros diferentes aos Zulos. O angolano soube impor-se e passou a ser respeitado devido a opulência.


Na África do sul não existe o que chamamos em Angola de curso médio. Depois da 9 classe o estudante que deseja, no futuro, estudar engenharia, apenas tira como disciplina as cadeiras relacionadas ao curso que pretende fazer. Por exemplo, quem desejar tirar direito não precisa de tirar matemática, físicas e etc. mesmo que desejar, será bem vindo mas fará num nível diferente aos outros, ao que eles chamam “high grade” e “Standarde grade”. Para quem deseja fazer medicina no futuro, as cadeiras de biologia e química devem ser em “high grade”.  O que acontecia na verdade? Como os professores receavam que a escola registrasse um elevado numero de reprovação que afectaria fortemente a reputação da escola passaram a nos encorajar a fazer todas  disciplinas em “Standard grade”. Logo com cadeiras neste nível o aluno, passa de classe mas não tem acesso a Universidade por não apresentar os requisitos. Em contra- partida muitos iam para os institutos técnicos superiores, hoje chamados por universidades técnicas, e outros iam para escolas privadas de ensino superior. Eram poucos alunos angolanos que estavam nas  Universidades de renome. Os que tivessem acesso ainda encontravam alguns entraves. Havia um estudante que em Angola chegou a estudar o  terceiro ano de medicina mas posto na África do Sul  teve de repetir o 12 ano.
 
Quando entrou para Universidade não lhe foi dado equivalência em nenhuma das cadeiras, feitas em Angola, porque os métodos de ensino eram totalmente diferente (mais a frente concluímos que sim). Um outro angolano queria estudar  arquitectura na Universidade de Pretoria. Posto lá teve  de desistir  porque no terceiro ano havia uma cadeira que estava na Língua Africaans que ele não dominava. Quer dizer o apartheid já não existia mais havia métodos que faziam-nos vive-lo.


Fonte: Jornal Angolense

Posted by Julinho in 13:55:23 | Permalink | No Comments »