Entrevista Fernando Heitor, Ex-vice-ministro das Finanças de Angola
“As portas têm de estar abertas em Portugal”
Os negócios portugueses em Angola terão como contrapartida natural o reforço dos interesses angolanos nas empresas nacionais.
Bruno Faria Lopes
Reciprocidade – esta é a palavra-chave nas relações económicas entre Portugal e Angola para Fernando Heitor, economista e ex-vice-ministro das Finanças (ver perfil) de Angola.
Em Portugal para uma conferência sobre o modelo de desenvolvimento angolano, no ISCTE, Fernando Heitor sublinha que o país que mais cresce em África – e para onde correm os empresários portugueses – pretende utilizar os milhões do petróleo para aproveitar a abertura que o primeiro-ministro José Sócrates mostrou na sua visita ao país em 2006. “As portas estão abertas lá em Angola, têm de estar abertas cá. É a concorrência”, afirmou ao Diário Económico.
O petróleo vale 95% das exportações e cerca de 60% da economia. Em que medida é que esta dependência de apenas um sector, muito dependente da economia mundial, é um risco?
Neste momento quem lidera a economia nacional é o petróleo – se juntar os diamantes vai ter um peso acima dos 65% do PIB, o que é de facto uma dependência monumental. É perigoso, isto. Tem que se dar um enfoque maior na produção mineral e na exportação industrial, na agricultura, na indústria transformadora e no turismo. E, já que estamos numa fase de reconstrução nacional, na construção civil.
Diversificar a economia…
Estamos agora muito entusiasmados, de forma frenética a explorar o petróleo quando temos outros recursos naturais. Podemos diversificar perfeitamente o sector mineral. Temos granitos que estão a ser explorados de forma muito tímida, temos ferro – os japoneses, através da empresa Sumitomo, mostraram agora interesse em avançar para a exploração de ferro. A intenção é de diversificar as exportações e fomentar a produção interna. Repare que importamos 60,3% de bens de consumo.
O crescimento actual é sustentável? O Fundo Monetário Internacional prevê que Angola chegue a 2013 com um crescimento de 0,4%…
É um dos desafios que se apresenta aos governantes angolanos. É evidente que se continuarmos adormecidos com a maré do petróleo alto não vamos conseguir sustentar durante muito mais anos. É por isso que dizia ser necessário diversificar. Mas o dado do FMI é completamente surrealista. Crescimento zero daqui a cinco anos? Nem pensar nisso. O petróleo vai manter-se em alta durante algum tempo – poderá baixar, mas nunca abaixo dos preços de 2000.
O negócio petrolífero tem levado à constituição de grandes reservas monetárias por parte da Sonangol, que tem actuado como um fundo soberano, com participações em grupos portugueses, como o BCP. Portugal vale por si ou é uma plataforma para os investimentos de Angola na Europa?
Portugal vale por si, temos vínculos históricos secularesl, e seja qual for o Governo, ninguém vai quebrar isso. Agora, Portugal pode ser uma porta para a União Europeia, podemos perfeitamente explorar esta via.
Mas têm uma óptica de rentabilização das reservas, como investimento, ou pretendem ter um papel activo nas instituições em que investem, como no BCP?
As coisas podem começar assim, por investir para arrecadar ganhos de participações, rentabilizar o capital. Mas, depois, Angola pode também ter pretensões de se agigantar. Isso não vai ter que interferir com os poderes instituídos. O nosso domínio [de actuação] é meramente comercial e económico. Da mesma forma como Portugal está em Angola e vai aumentando cada vez mais a sua quota de mercado num conjunto de sectores, nós também queremos diversificar a nossa intervenção no mercado português e outros da União Europeia.
É uma questão de reciprocidade…
Sim, tem de ser assim. Com a visita do primeiro-ministro José Sócrates [em 2006], as relações ficaram um pouco mais soltas. Nós também queremos aproveitar a oportunidade de vir para aqui investir com o capital que temos – são investimentos virtuosos, não predatórios. E nós, em Angola, temos sido um bocado alvo disso.
Portugal tem feito investimentos predatórios em Angola?
Talvez não Portugal – se calhar um ou outro [empresário], mas não é por aí. Neste aspecto não é bom falar em países, nem estados. É melhor falar em investidores. Há empresários que, quando toca ao mercado africano, têm a intenção de fazer investimentos predatórios.
Que tipo de negócios portugueses interessa a Angola?
Portugal está bem, arriscou um pouco mais e ganhou vantagem em relação aos outros países, portanto não há aqui que haver ciúmes. Apostou nos petróleos, é o único parceiro de Angola na distribuição de petróleo, através da Galp. Apostou na banca, numa altura em que não tínhamos quase banco nenhum, e hoje está na liderança da banca, um dos negócios mais dinâmicos em Angola. Apostou no ensino, está nas universidades, e na construção civil de uma forma espectacular – só foi ultrapassado pelos chineses por causa de um financiamento bilionário, mas isso é circunstancial. Na hotelaria está na frente.
Sim, mas parte da discussão em Portugal é outra: a entrada de capital do Estado de Angola no país, em grandes grupos como o BCP, a EDP e a PT Multimédia. Há razões para recear o poder de intervenção que a Sonangol quererá ter nestas empresas?
Essa pergunta deveria ser feita aos dirigentes aqui de Portugal. O que eu ouvi do primeiro-ministro José Sócrates é que estão abertas as portas. Estão abertas lá em Angola, têm de estar abertas cá. É a concorrência. A Sonangol ou qualquer outra empresa angolana no mercado português vai ter de respeitar as regras. Não vejo perigo nenhum nisso. Se Angola está na mó de cima, tem dinheiro para investir e escolheu Portugal como receptor isso é óptimo para as duas economias. A economia da Europa está em letargia, Portugal tem apanhado por tabela – é óptimo que haja um país que tenha os tais fundos soberanos e que venha aqui ajudar isto a ir para a frente.
Quando se fala de fundos soberanos – veículos de investimento de Estados – as empresas sentem-se mais confortáveis com um “sleeping partner”…
As empresas guiam-se por outras regras. As acções compram-se na bolsa de valores. Nós estamos a vir cá de coração aberto. É a Sonangol que vai comprar, é Angola que vai comprar, não há segredo nenhum. Mas se [a Sonangol] vai aumentando a sua participação no capital social de uma empresa, depois quer ter voz, vai querer nomear um administrador. Isso é óbvio, são as leis da economia de mercado. O chamado capitalismo popular não permite isso?
Empresas portuguesas investem mais em Angola
O investimento das empresas portuguesas em Angola cresceu 20% entre Janeiro e Novembro do ano passado, quando comparado com o ano inteiro de 2006, segundo dados do Banco de Portugal. Nos 11 meses de 2007, o investimento atingiu os 394,1 milhões de euros, face a 330,1 milhões de euros no ano anterior. A presença portuguesa em Angola destaca-se, desde logo, no sector bancário. Há cinco bancos nacionais a operar no mercado angolano: Banco Espírito Santo, Banco Millennium Angola, Banco Totta de Angola e Banco de Fomento de Angola. O lucro dos bancos portugueses que operam no mercado angolano atingiu os 135 milhões de euros em 2006, de acordo com um relatório da Deloitte, o mais recente sobre o tema. Este valor representa um acréscimo de 33% face ao ano anterior, num mercado onde apenas 6% da população tem acesso a serviços bancários. Destacam-se ainda os sectores do imobiliário, construção, ou turismo.
Portugal é aposta estratégica da Sonangol
Portugal é uma das grandes apostas da Sonangol, a petrolífera líder do mercado angolano. A presença em empresas nacionais está diversificada em distintas áreas de negócios que vão desde a banca ao sector energético - através de uma participação directa na Amorim Energia, que participa, por sua vez, no capital da Galp Energia. A Sonangol está também presente no maior banco privado português, o Millennium BCP, onde já avisou que pretende reforçar a sua posição para um valor próximo dos 10%. Numa altura em que decorre o plano de internacionalização, o futuro da Sonangol em Portugal passa por um aumento do investimento que poderá alargar-se a novos sectores de actividade. Uma das possibilidades já admitidas por Manuel Vicente, presidente da empresa, é o sector do gás.
sociedade de generais angolanos encaixou perto de 120 milhões de dólares, nos últimos dez anos, com uma participação “silenciosa” no negócio dos diamantes.
Luanda – O presidente da Unita, Isaias Samakuva, fez recentemente alguns pronunciamentos públicos em Portugal, como forma de passar uma mensagem política no âmbito da sua campanha eleitoral.