Leninegrado de África
A Batalha de Cuito Cuanavale (Angola) e seus efeitos políticos no contexto regional e continental tem sido comparada à famosa batalha de Leninegrado, que travou o avanço das tropas nazis no território da então União Soviética e mudou completamente o curso da II Guerra Mundial a favor das forças aliadas (URSS, EUA e Inglaterra).
Nesta batalha, segundo dados históricos, perderam a vida mais de um milhão de pessoas, entre civis e militares.
Voltemos, entretanto, à intervenção sul-africana em Angola. A história regista que a intervenção sul-africana em Angola começou já no período colonial português, com o objectivo de ajudar os colonialistas na luta contra os grupos de guerrilheiros que então lutavam pela independência nacional.
A principal base da África do Sul na altura se encontrava localizada na região do Cuito Cuanavale.
Após a independência, as forças do apartheid voltaram a invadir Angola, posicionando as suas tropas até ao Sul do Ebo, na província do Kwanza -Sul, de onde sofreram uma estrondosa derrota e se bateram em retirada.
Após este recuo, instalaram-se na Namíbia e daí realizavam incursões no território angolano, sempre com o pretexto de que combatiam a Swapo e o ANC, respectivamente movimentos de libertação da Namíbia e da África do Sul.
Nesta altura, as tropas cubanas, que já tinham ajudado a repelir o exército sul-africano, passaram a defender a linha Lubango (Huíla) e Menongue (Kuando-Kubango). Durante quase mais de uma década, o regime sul-africano tinha como objectivo manter uma zona tampão no sul de Angola, onde operariam livremente contra o Exército angolano.
O Exército angolano realizou, durante este período, várias operações ao Sul do território, com o objectivo de destruir algumas bases da Unita que ali se encontravam.
As operações das FAPLA tinham como objectivo destruir as bases da Unita e nela foram empregues quatro brigadas (16, 21, 45 e 59), que avançaram até às margens do rio Longa.
A ofensiva das FAPLA estava a ser coroada de êxitos até os sul-africanos introduzirem directamente forças no terreno dos combates, como a brigada 61 motorizada, o Batalhão Búfalo e outras que conseguiram, na altura, travar a ofensiva das forças governamentais.

Animados com este resultado, os sul-africanos resolveram realizar a operação denominada “Hooper”, cujo objectivo era destroçar as brigadas das FAPLA e tomar de assalto o Cuito Cuanavale.
Decidiram então abrir duas frentes, sendo uma no Kuando-Kubango e outra no Cunene, com o objectivo de realizar uma ofensiva em direcção à fronteira namibiana.
A grande batalha teve início a 23 de Março de 1988, quando as tropas do Exército regular sul-africano realizaram, com meios bélicos de última geração, um ataque de grandes proporções, por terra e ar, à vila do Cuito Cuanavale. Após grandes combates de artilharia, tanques e bombardeamentos aéreos, que duraram oito horas, as FAPLA conseguiram, no fim, derrotar as tropas sul-africanas, que se viram forçadas a se retirar.
A batalha culminou a 30 de Agosto de 1988.
Depois disso, foram rubricados os acordos de paz de Nova Iorque (EUA), que abriram caminho à retirada incondicional das tropas sul-africanas de Angola, a realização de eleições livres e justas na Namíbia e a derrocada do regime do apartheid na África do Sul.
Cumpriu-se assim um dos postulados defendidos pelo Governo de Angola: a independência e liberdade de todos os povos da África Austral.