Friday, January 11, 2008

Não acha que JES está há muito tempo no poder? – Não quero criar problemas


Acha que Savimbi foi mau para Angola?
- Acho que foi um criminoso terrível

Tejo – Maria Eugénia Neto, de 73 anos, transmontana, desfia a história da sua vida e a do país que a adoptou e onde vive, desde os tempos em que, ainda adolescente, conheceu em Lisboa um negro pelo qual se apaixonou, com o qual se casou e que se tornou o primeiro Presidente de Angola, até à polémica morte do marido, em Moscovo.

O que vai ser a Fundação Agostinho Neto, criada por si?
- A Fundação surge para dizer a verdade sobre a libertação histórica de Angola. Queremos fazer a pesquisa e divulgar a obra do dr. António Agostinho Neto e também promover a educação, a ciência, a tecnologia, a cultura e a criação.

Porque demorou tanto tempo a surgir?
- Agostinho Neto não deixou património. Ele não deixou nada, nem aos filhos. Tínhamos dificuldades económicas em fazer a fundação vir à luz do dia.

Não fazia sentido que tal homenagem fosse prestada pelo Estado angolano?
- Sim, o Presidente esteve presente na abertura da Fundação (14-09-07). E estava o povo, mais de mil pessoas. Até aqui só havia a Fundação do Presidente José Eduardo.

A fundação do segundo Presidente surgiu antes da do primeiro?
- Sim, e o povo sentia-se defraudado. Agora já temos a fundação do nosso Presidente. Agora é preciso trabalhar muito e precisamos de todas as ajudas.

Quem a ajudou, financeiramente?
- O partido (MPLA) deu um pouco, mas o Estado vai ajudar – tem que ajudar. E toda a gente que queira ajudar, porque sem dinheiro vamo-nos ver atrapalhados.

E o Presidente?
- Prometeu que vai ajudar. Tem que ajudar, senão a gente faz confusão (risos).

O que se passa com o mausoléu que seria o túmulo de Agostinho Neto?
- Agora está a ser acabado.

Como conheceu Agostinho Neto?
- Frente à minha casa, em Lisboa, havia uma casa por onde passavam muitos estudantes angolanos. Eles cumprimentavam-me e eu, no início, não dizia nada. Até que um deles me disse: «A menina não nos cumprimenta porque somos pretos!» E eu respondi: «Não cumprimento porque não os conheço de lado nenhum!» A partir daí estabeleceu-se uma amizade. Eu era profundamente religiosa e eles liam tudo o que era contra e que depois me passavam. Houve uma altura em que fiquei baralhada: mas então onde é que está o norte? Até que, a pouco e pouco, fui compreendendo. Sou produto deles

Foi aculturada por eles?
- Sim, fui. Conheci o meu marido e ao longo de cinco anos não namorámos. Tratava-me por amiga, minha querida amiga.

O que a atraía nele?
- Achava que era diferente de todos, muito sério. Depois, quando foi preso, eu ajudava-o, mandava coisas à cadeia.

Porque foi preso da primeira vez?
- Estava a recolher assinaturas para a paz. Bateram à porta da casa de um polícia e … foram parar a Caxias. A penúltima vez foi por pertencer ao MUD Juvenil.

Nunca pertenceu ao PCP?
- Não, pertenceu ao MUD. Foram presos e como não tinha cá ninguém falou à polícia em mim, e disse «a minha noiva»…

Era uma forma de permitir as visitas?
- Sim, e de escrever e receber cartas. Ainda tenho um molho de cartas. Era bastante mais nova que ele! Quase 12 anos. Depois comecei a ler a poesia dele e a apaixonar-me pelo poeta. A poesia dele é muito profunda.

Preferia o médico, o poeta ou o político?
- Preferia que tivesse sido médico.

Ainda estaria vivo se fosse médico?
- Sim. Parece que Deus punha a virtude onde ele punha as mãos.

Como é que resolveram casar?
- A minha mãe disse: «Não se abandona um homem na cadeia, mas quando sair tens que pôr os pratos a limpo.» Quando saiu, foi falar com a minha família. Fez o ano de Medicina que lhe faltava e casámos no dia da formatura, em Lisboa. O meu pai tinha morrido uma semana antes.

Ainda é portuguesa?
- Sou, não quis mudar de nacionalidade.

Tem dupla nacionalidade?
- Sim, ofereceram-me a nacionalidade (angolana).

Tem passaporte português?
- Tenho.

No bilhete de identidade de Angola vem mencionada a raça. Concorda?
- Há pessoas que ficam muito ofendidas, mas não sei se isso é uma ofensa.

Quando entra em Portugal qual é que usa?
- Uso sempre o angolano, é mais fácil. O meu passaporte é diplomático.

Continuaram a viver em Portugal?
- Sim, trabalhou nos hospitais, fez pediatria no D. Estefânia. Depois nasceu o nosso primeiro filho, o Mário Jorge. Partimos de Lisboa tinha ele vinte e tal dias.

Para onde?
- Para Luanda. Ele foi montar consultório, onde ainda trabalhei como assistente.

Pensava fazer algum curso?
- Não houve hipótese, quis sempre estar ao pé dele. Sentia-me insegura, nunca tinha saído debaixo da saia da minha mãe.

Como era a vida em Luanda?
- Tinha cada vez mais doentes e já estava a ganhar bom dinheiro. Vivemos em casa de um cunhado e depois arranjámos a nossa própria casa, mas ele foi preso.

Porquê?
- Tinha escrito uma carta para o Lúcio Lara, no Congo, e a pessoa que a levava foi apanhada. Estava escrita pela mão dele…

Foi maltratado pela PIDE?
- Em Luanda não – já era um grande senhor. Em Caxias sim, há umas fotografias em que se vê a cara maltratada.

Queixava-se de maus tratos e torturas?
Nas últimas vezes não, mas nas primeiras sim, acho que fizeram a tortura da estátua. Bateram-lhe, chamaram-lhe nomes, como a qualquer português.

Quanto tempo ficou preso?
- Dois meses e tal, até que foi enviado para Portugal, com a promessa de ficar em liberdade. Só que, ao chegar, foi para o Aljube mais de dois meses. Eu passava a vida a aborrecer o dr. Adriano Moreira (ministro do Ultramar), que ficava aflito, porque não tinha conseguido arranjar com a PIDE uma solução para o caso.

Como conheceu o Adriano Moreira?
- Alguém me indicou que era com ele que deveria falar. Fui falar ao director da PIDE, escrevi ao Salazar e o secretário dele recebeu-me. Era um jovem muito simpático. A carta ainda deve estar por lá.

Não falou com Salazar?
- O Salazar não dava confiança.

Havia casais mistos em Lisboa?
- Eram raríssimos.

E em Luanda?
- Também havia poucos.

Não se sentia um corpo distinto naquela sociedade?
- Não, porque tínhamos um grupo de amigos progressistas, que me tratavam muito bem. Depois, com a independência, as coisas foram mais difíceis.

Como foi a vossa vida em Cabo Verde?
- Fomos juntos para lá. Depois, eu vim a Lisboa ter a minha filha Irene. Na minha ausência, ele tentou evadir-se mas não conseguiu, e aumentaram-lhe a vigilância. Ficou a trabalhar no hospital da Cidade da Praia e a população gostou tanto dele que fez um abaixo-assinado para lá ficar. Entretanto, eu cheguei com uma daquelas fotografias com a cabeça de um africano espetada num pau. Alguém deve ter ido dizer à PIDE. Vieram vasculhar, levaram-no preso e foi de novo para o Aljube, em Lisboa, onde ficou mais seis meses. Houve um grande levantamento internacional, com o François Mauriac, o Jean-Paul Sartre e outras personalidades francesas e inglesas a pedirem a sua libertação. Resolveram pô-lo em liberdade, sob vigilância. Todos os meses tinha que se apresentar. Mas a fuga já estava a ser tratada. Fomos para a Praia das Maçãs e depois fugimos.

O que foram fazer para a Praia das Maçãs?
- De férias, durante uns quinze dias. A casa era isolada, só havia pinhais. Fazíamos piqueniques e estavam lá a minha mãe e uma tia. Mas as coisas já estavam a ser organizadas através do Arménio Ferreira, que tinha contactos com o partido.

Como foi a vossa fuga, em 1962?
- Ele não queria que eu fosse, mas eu não quis ficar, porque se ficasse era presa. Partimos de barco, da doca de Pedrouços.

Como foi a viagem?
- Muito difícil, ia morrendo. Em Sagres ainda parámos. Ele estava maravilhado com aquela Ponta de Sagres. Depois, de noite, o barquito de salva-vidas foi embora e a rede enrolou-se na hélice – foi terrível!

Até que chegaram a Tânger.
- Quando chegámos, o partido de lá já estava avisado. Dormimos e depois partimos para Rabat.

Há quem diga que a PIDE teria fechado os olhos à vossa fuga?
- Não, a PIDE tinha interesse em que ele ficasse aqui.

E depois de Marrocos?
- Estava lá a minha cunhada. Fiquei com os meus dois primeiros filhos cerca de um mês, enquanto ele foi até Kinshasa (na altura, Leopoldville) para arranjar condições para nós vivermos. Até que nos veio buscar.

Os miúdos andavam sempre convosco?
- Sim, mas eu nunca fui para as frentes, estive sempre na retaguarda. Ao princípio havia muito racismo – e penso que a mulher do Amílcar Cabral saiu por causa disso. Na Tanzânia as coisas já eram diferentes. Fazíamos programas para a rádio Angola Combatente (que também existiu em Brazaville). Tínhamos o jornal «Angola em Armas», em inglês, o boletim da Organização da Mulher Angolana, e ainda levávamos as crianças à escola. Os meus filhos formaram-se com a idade devida.

Todos eles?
- Todos. A Irene é oftalmologista, a Leda economista e o Mário Jorge engenheiro. Quando chegam a Leopoldville, dá-se a ruptura com o Viriato da Cruz. Eu estava na retaguarda e ouvia zunzuns. A minha ideia do Viriato é um bocado esquisita. A atitude que teve comigo – agressiva, de ódio, mal-educada-foi o meu primeiro banho de racismo. Não sei se já nessa altura ele estaria bom.

Do ponto de vista mental?
- Sim, porque não se entende. Tem uma atitude agressiva e começa a lançar o boato de que eu devia ser enviada pela PIDE. E ele também…

O seu marido?
- Sim. O Viriato viu que o Mário de Andrade não era uma pessoa que lhe metesse medo. Nunca viu nele um grande rival, mas no Agostinho Neto viu. Ainda por cima, o Agostinho Neto era preto, enquanto ele era mestiço. Pensou que tinha perdido o seu lugar. Foi estúpido: havia lugar para todos e ele teria sido uma grande ajuda, porque era um homem muito inteligente e instruído. Mas fez tudo para destruir o outro que tinha acabado de chegar.

Como é que o seu marido lidou com isso?
- Organizou-se uma Conferência no Congo e fizeram eleições. Havia duas listas e ganhou a do meu marido.

Viriato foi o único que manifestou reservas em relação a si e ao casamento?
- Não foi ao casamento – foi em relação a mim, por ser portuguesa. Tinha um grande ódio aos portugueses, não sei porquê. Ele era muito marcado.

A senhora é militante do MPLA?
- Sou mais que militante.

Mas nunca se inscreveu!
- Sou uma militante acérrima, mas sem estar inscrita.

De onde vinham os apoios internacionais do MPLA?
- Não sei. São segredo de Estado.

Segredos de Estado? Então a viúva do Presidente…
…a viúva do Presidente vai lá saber!

Entre os dois, havia assuntos reservados?
- Sim. Ele não falava de coisas políticas.

Mas tinha o seu apoio incondicional?
- Sim, mas apoio como esposa. Eu não interferia em nada.

Quando é que Neto foi pela primeira vez à União Soviética?
- Não sei dizer as datas. Acho que foi numa «tournée». Primeiro foi à América, que não quis nada connosco. Depois foi a uma série de países: Mongólia, China…

O que correu mal nos EUA, em 1963?
- As igreJas não quiseram dar apoio. Disseram que ele era comunista.

Quando foram para Luanda?
- Em 1974. Primeiro foi uma delegação, com o Lúcio Lara a chefiar, depois formaram o Governo de Transição e nós fomos no 4 de Fevereiro (de 1975).

Como foi a chegada a Luanda?
- Uma apoteose. Muito bonito. Um mar de gente no aeroporto.

Ultrapassou as vossas expectativas?
- Sim. Pelo menos as dele.Isso foi muito obra do MPLA do interior. Sim, ele nunca deixou a 1.ª Região nas mãos de ninguém. Ele tinha um grande orgulho nos «meninos» da sua 1.ª Região. É por essa razão que isso do Nito Alves é um grande drama histórico.

Como foram os primeiros tempos na Presidência?
- Muito difíceis, porque o país esteve sempre em guerra e sobressalto: a FNLA, a UNITA, o Chipenda… O que salvou o MPLA é que toda Luanda era MPLA. A FNLA pôs-se a fazer crimes, a matar pessoas, a deitar ácido nas fossas e a população ainda mais se revoltou e expulsou-os da cidade. Foi a população – o MPLA quase não tinha armas nessa altura.

Valeu-lhe o apoio dado por elementos das Forças Armadas portuguesas?
- Isso aí não sei – sabe mais que eu.

É um facto histórico.
- É? É possível, mas não sei se é verdade.

O alto comissário Rosa Coutinho…
- Não sei se isso é verdade, se não são só boatos.

O MPLA sofreu algumas convulsões: Chipenda, a Revolta Activa…
- Embora essa palavra já não se use, isso tudo é obra do imperialismo, porque não interessava que Agostinho Neto chegasse lá forte, e que ficasse à frente, só, daquele país. Estúpidos! Ele era o homem da paz, da concórdia e da amizade entre os povos, não sei porque tinham medo.

Os Pinto de Andrade eram instrumentalizados pelo imperialismo?
- Acho que sim. Quando fizeram a Revolta Activa, tiveram contactos com petrolíferas e tudo! Não sou eu que o digo, são alguns deles que o dizem – inclusive o Belli-Bello.

Não havia uma grande luta pelo poder nas fileiras do MPLA?
- Há sempre lutas pelo poder, principalmente a juventude, que pensava que o país se podia dirigir só com a catequese política. Isso é preciso, mas não chega. Eles começaram a manifestar-se contra Agostinho Neto e a arranjar problemas. Queriam nacionalizar as petrolíferas, os diamantes, etc., mas ele não podia fazer isso: a comida comprava-se com esse dinheiro e ia de avião, Angola estava bloqueada. Como é que iam nacionalizar as petrolíferas se não havia tecnologia para a transformação?! Isso são coisas de crianças, de jovens imaturos que não percebem nada do poder e do que é governar um país. Foi essa imaturidade que os levou a tentar um golpe de Estado.

O 27 de Maio de 1977 foi uma tentativa de golpe de Estado?
- Pois claro que foi.

Apoiada por quem?
- Apoiada por quem você sabe.

Eu não sei de nada. Se soubesse…
- Apoiada por muitas forças que também não tinham experiência nenhuma e pensaram que afinal Agostinho Neto não era tão revolucionário como se pensava.

Refere-se à URSS?
- Estou a referir-me à União Soviética, a determinados portugueses que estavam lá, etc. Precisamente aqueles com quem ele contava para ajudar a construir o país.

Sentiu-se traído?
Sentiu-se traído. E ao apoiar essa garotada e essa juventude do Nito Alves, eles são em grande medida responsáveis pelo que se terá passado a seguir. Puseram-se a apoiar jovens que não tinham experiência nenhuma e que eram uns ambiciosos pelo poder.

Refere-se a que portugueses?
- Os que estavam lá.

O Costa Martins?
- Os que estavam lá. O Costa Martins foi para lá fugido, deu-se-lhe trabalho e tudo, e começou a meter-se nas confusões internas de Angola. O meu marido fez uma alusão a isso num discurso. Eles traíram: ele e outros. O meu marido ficou tão doente, tão petrificado com aquilo… Esses jovens mataram os melhores dirigentes da luta de libertação e do MPLA da altura. Mataram e queimaram. O meu marido ficou tão perturbado com aquilo que disse muitas vezes: «Eles mataram, eles não têm perdão.» É claro que se referia aos cabecilhas, porque a juventude, coitada, foi levada e nem percebia nada do assunto. Eles eram comissários políticos no Exército, etc., e levaram os miúdos, dizendo que o Agostinho Neto não era bastante revolucionário.

Como é que viveram esses dias?
- Eu só via um grande alvoroço lá em casa. Uma vez, houve um responsável que me disse que não dizia nada ao camarada presidente para não o incomodar. Fizeram muita coisa sem ele saber. Eles eram militares e foram julgados por tribunais militares.

Julgados?
- Sim, em tribunais militares.

Sem advogados?
- Isso aí não sei como foi, mas foram julgados.

Dos relatos que conheço, nenhum fala em tribunais, nem em advogados de defesa…
- Não! O livro do Michel (Jean-Michel Mabeko Tali) fala disso e das investigações. Também não sei se é verdade, mas diz que foram julgados no Ministério da Defesa.

Conheceu o Nito Alves, claro…
- Não o conheci profundamente. Nunca tive contactos pessoais.

Mas o Presidente tinha.
- Sim, ele era do Bureau Político.

Tinha sido da confiança pessoal de Neto.
- Foi só no congresso (de Lusaka, em 1974) que o conheceu. E representou o MPLA no Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1976. Foi a asneira que ele fez.

Asneira porquê?
- Porque mostrou o que era: um canalha! O Presidente confiou nele, deu-lhe prestígio por ter sido resistente da 1.ª Região. Chegou lá e disse aos soviéticos: agora sou eu!

Isso deu força ao Nito Alves?
- Claro. Os soviéticos, em lugar de porem o retrato do Presidente Neto no congresso, puseram o do Nito Alves. Compraram-no logo.

Conhecia o José Van Dunem?
- Não conheci.

E a ex-militante do PCP, Sita Valles?
- Não.

O senhor conheceu-os todos, não?
- Não, mas tenho procurado ler alguma coisa sobre o assunto.O problema é que a maior parte das coisas que se lê são mentiras. Mesmo o primeiro livro do Iko Carreira. Ele diz que encontraram 200 culpados e que foram ao Presidente Neto, que homologou as listas – mas que estas desapareceram. Perguntei ao Iko onde estava o documento do Presidente a dizer que ninguém liquida ninguém sem a minha assinatura – e ele baixou a cabeça. Passou esse documento quando começou a saber dos disparates que andavam a fazer.

Mas o seu marido tinha ido à televisão dizer que não haveria perdão…
- Não! Essa é a frase em que os malandros pegam. Ele disse: eles mataram. Eles, eram os cabecilhas! Quem matou não tinha sido a juventude. Isso não é nada claro no discurso televisivo. Não é claro para quem não quiser. Eles mataram… Os miúdos não tinham morto. Eles, eram os cabecilhas, que não têm perdão. Muitas mãozinhas estiveram interessadas em fazer confusão.

O seu marido referia-se apenas aos cabecilhas?
Claro. Claro.

Mas isso não foi entendido assim.
- Porque não quiseram entender. Quando foi da morte do Nito Alves, quiseram que ele assinasse – não sei se assinou. Estava tão revoltado que me disse: «Aos miúdos, que eram quase todos recuperáveis, mataram sem a minha assinatura; este, que é culpado, querem que assine.» O Arménio Ferreira disse-me que ele não assinou, foram 15 generais que assinaram. Se assinou ou não…

Quinze generais?
- Disse-mo o Arménio Ferreira. Se é verdade se não… O que o Nito Alves fez não tem perdão. Ele pôs a independência em perigo, pôs tudo em perigo – inclusivamente teve o atrevimento de fazer frente a um colosso daqueles. Quem era o Nito Alves? Foi uma nuvem negra que passou, daqui a uns anos já ninguém se lembra que existiu… Enquanto o Agostinho Neto é para a eternidade.

Uma coisa é o Nito Alves, outra coisa são os 30 mil mortos!
- Isso é mentira. Essa senhora é desonesta, é mentirosa (referência a Dalila Mateus, co-autora do livro Purga em Angola).

Então quantas pessoas morreram?
- Não sei, não estava dentro de nada. Mas isso é mentira.

Já passaram 30 anos e ainda não se sabe quantos foram os mortos!
- Estou-lhe a dizer que não sei. Não estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar.

Sabe que a Sita Valles estava grávida quando foi presa?
- Não quero entrar nesses pormenores. Não estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades… Mas olhe que nunca ninguém perguntou: e se eles tivessem ganho? O que não teriam feito? Se, logo de início, mataram seis (os melhores e mais fiéis ao Presidente Neto) e os queimaram no Roque Santeiro, imagine o que não iriam fazer. Nós tínhamos sido todos limpos!

Como olha para a Angola de hoje?
- Há muita coisa que precisa de ser feita.

Mas o que não está bem? – Aquela discrepância económica. Como dizia o meu marido, o mais importante é resolver os problemas do povo.

O seu marido rever-se-ia nesta Angola tão injusta do ponto de vista social?
- Isto não foi nada do plano dele.

Isto é contra o que ele ambicionava?
- Não digo contra, mas não era esta a Angola que ele desejava.

Qual é a diferença entre esta Angola e a que o seu marido desejava?
- Estas discrepâncias todas: um lado muito rico e um lado muito pobre. É preciso haver uma classe intermédia.

Votou nas primeiras eleições?
- Votei.

Pode-se saber em quem?
- Não.

Vai votar nas próximas?
- Vou.

Pode-se saber em quem?
- Não (risos).

Conheceu Jonas Savimbi?
- Não muito bem.

Acha que foi mau para Angola?
- Acha que foi bom?

Não sei, estou a perguntar-lhe…
- Acho que foi um criminoso terrível. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdão para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou então uma era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estão sempre a repisar no mesmo assunto. Não falam nos crimes que se cometeram na Guiné, em que se cortou o Ansumane Mané aos bocados… Angola está sempre na berlinda. E com um ódio, de não estar lá ou de não usufruir das riquezas. É uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora… Já no outro (A Luta pela Independência), tive uma discussão, porque não deu a realidade dos pais fundadores… Li o outro, deste nem quero saber!

Nunca pensou em voltar a casar?
- Não.Fiquei muito doente, sabe? Esta afinidade com o meu marido é uma coisa espectacular. É também uma coisa espiritual, não sei explicar. Marcou-me tão profundamente que eu…

Foi o seu único amor?
- Foi. Era um homem com um carácter tão nobre, tão humano, com um sentido de justiça tal, que me penetrou profundamente. Tudo aquilo que há de melhor em mim é tocado pela profundidade daquela poesia. Um homem daqueles, que escreve A Sagrada Esperança, não pode ser um criminoso. E eu não estaria aqui a apoiar um criminoso. Se aconteceu essa desgraça, isso não foi ele. Há uma frase que ele disse no Palácio: «Aqui onde me puseram, onde nem ouço a chuva.» Isso, em termos africanos, quer dizer muito. Ele queria sair, mas estava amarrado.

Quem o manietava?
- As forças do MPLA, da segurança… Não queriam que ele soubesse.

O «cerco» que lhe montaram era porque se soubesse de algumas coisas iria actuar de forma diferente?
- Claro. Conforme depois actuou. Desfez a DISA e quando desfez a sua própria polícia disse que ela não estava a cumprir, nem interna nem externamente, os objectivos para que fora criada. Está lá o discurso!

Qual é a sua opinião sobre o Presidente Eduardo dos Santos?
- É um homem inteligente.

Não acha que está há muito tempo no poder?
- (Silêncio) Também não quero falar nisso, porque não quero criar problemas.

Não devia ter havido já eleições?
- Essa guerra maldita também foi muito complicada. Vocês nem sonham!

Há democracia em Angola?

- Olhe, o que eu acho é que quando havia partido único as pessoas falavam muito mais do que hoje. De tal maneira eles tinham liberdade que até montaram um golpe de Estado – e nas calmas…

Há menos liberdade de expressão que no tempo do Presidente Neto?
- Em certas coisas, há. Até se tinha instituído um programa para o povo dizer o que não estava bem. E eles aproveitaram esse programa, canalhas, para revoltarem o povo contra o Presidente. Foram muito malandros.

Se em Angola houvesse um concurso como o da RTP, sobre o maior angolano de sempre, quem ganharia?
- Agostinho Neto? Ah, ganhava, pode ter a certeza. Na Fundação, estavam mais de mil pessoas, tão contentes! Diziam: «O nosso Presidente.» Foi como se ele ressuscitasse. Mas fiquei contente com o resultado do Cunhal, que foi o símbolo da resistência contra o fascismo. E os comunistas, apesar de terem feito asneiras em Angola, e de serem grandes responsáveis pelas maluquices do Nito Alves…

O PCP?Agostinho Neto?
- Sim.

Fizeram muitas patifarias?Agostinho Neto?
- Não, mas apoiaram aquela miudagem. Mas o Cunhal fez com que este país mudasse. Acho interessante o povo português, apesar de muita gente ser anticomunista, votar nele. Reconheceram-no.

Porque é que o seu marido morreu na URSS?
- Ele não queria ir. Mas não quero falar nisso.

Não tinha confiança?
- Não devia ter.

Poderia ter sido bem tratado em Luanda?
- Não. Estava para ir lá uma médica inglesa, mas não chegou a tempo.

Quais eram as alternativas?
- Há tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!

Quem decidiu que iria para a URSS?
- Foi o médico dele – e com certeza que o partido também esteve de acordo. Mas não sei, são coisas em que não meti o nariz.

O médico dele era…
- … na altura, era o dr. Eduardo dos Santos.

A senhora acompanhou-o até Moscovo?
- Mas não adiantou nada – não fui para a sala de operações e mesmo que fosse não percebia nada.

Tem alguma reserva ou desconfiança?
- Não posso dizer nada, mas o que sei é que, nesta época, uma pessoa não acordar de uma operação é um bocado esquisito…

Foi operado concretamente a quê?
- Eles dizem que foi ao pâncreas. Se foi ou não…

Diz-se que tinha uma cirrose já adiantada.
- Sei lá se é verdade!

Diz-se também que bebia muito.
- Isso é mentira! Isso é o que eles dizem. Como não tinham mais nada em que pegar…

Mas olhe que é comum dizerem isso, mesmo dentro do MPLA.
- Eu sei que é. Mas é mentira. Eles são terríveis. Nunca vi o meu marido bêbado! Nem eu nem os meus filhos. E como é que uma pessoa bêbada podia ter tanto trabalho e preocupações e tomar aquelas decisões tremendas? Os políticos são assim. Quando ele bebia uísque, bebia um bocadinho e o copo cheio de água.

Como foi a sua vida depois da morte dele?
- Muito complicada. Foi um choque tremendo. Fiquei tão doente que num mês emagreci dez quilos.

* Cândida Pinto e José Pedro Castanheira
Fonte: Expresso

Posted by Julinho in 20:31:28
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