Má governação, arrogância e ostentação são os pecados capitais do Mpla
![]() com Paulo de Carvalho Luanda - O próximo ano poderá ser de grandes decisões políticas no país. Para medir a pulsação ao que aí vem, o Semanário Angolense deu a palavra a Paulo de Carvalho. na visão deste reconhecido siciólogo, tudo indica que o período de campanha eleitoral, em 2008, venha a ser um período relativamente difícil. Se por um lado os angolanos pouco reivindicam quando devem e vão por isso aproveitar o período de campanha para tentar sarar várias feridas, por outro os partidos políticos têm ainda dificuldade em separar o interesse nacional dos seus próprios interesses. Um aspecto positivo a destacar tem a ver com o adiamento das eleições, por algum tempo, após o termo da guerra. “Posso hoje considerar tratar-se de um acto de coragem e de sensatez, pois mais do que quaisquer eleições, era preciso garantir que não haveria retorno à guerra. Mas vai finalmente haver eleições, sendo de recomendar aos políticos dos vários lados que façam o seu trabalho e cumpram a sua missão, mas com alguma contenção”, recomendou. “Para si, é preciso ainda que os «mais pequenos», que têm muito pouca probabilidade de chegar ao poder, não utilizem o período eleitoral para fomentar a violência e procurar tirar daí algum benefício”.
Já a Unita continua sendo um partido de massas, não se lhe conhecendo qualquer programa de governo. Quanto aos demais, a conclusão genérica é de não haver alinhamento, pois o fundamental para eles é conseguir-se uma fatia do poder, podendo o alinhamento ideológico dificultar essa pretensão. Claro que há algumas excepções: por exemplo, a FpD (um partido de quadros, dos poucos com base claramente estratificada) assume-se como partido político de centro-esquerda. Já para responder à sua pergunta, parece-me que a ausência de linha ideológica não dificulta a existência de qualquer partido político em Angola, visto essas agremiações existirem com base noutros critérios de natureza sociológica. Não nos esqueçamos que não existe tradição democrática em Angola. Aliás, no caso actual de Angola e vista a coisa de forma simples, o alinhamento ideológico pode inclusivamente retirar alguns votos aos partidos políticos. Já o eleitorado tradicional do Mpla (que é quem governa há mais de 30 anos) está hoje dividido: de um lado mantêm-se os ainda «irredutíveis», mas há uma franja considerável de pessoas que hoje pensam abster-se ou que se deslocaram para o grupo de indecisos. É sobre esta franja que os partidos políticos têm que agir, de forma a direccionar para si o seu voto. Excluindo aqueles poucos angolanos que «tradicionalmente» se abstêm, estou convencido que as demais abstenções sairão fundamentalmente do anterior eleitorado do Mpla e dos seus descendentes, que são uma grande fatia do eleitorado. Por isso é que se deve considerar que, hoje, uma abstenção equivale a um voto contra o Mpla, ou seja, a um voto a favor dos demais partidos políticos, com destaque obviamente para a Unita. Não nos esqueçamos, por exemplo, que a região leste do país foi sempre a mais marginalizada, tanto no período colonial, como após a proclamação da independência política. Por outro lado, não nos devemos esquecer que o interior do país também tem sido marginalizado por Luanda, no âmbito até da própria sociedade. Todos estes factores jogarão papel preponderante no momento do voto. Talvez o elemento fundamental a considerar tenha a ver com a penalização do Mpla devido à má governação, e à arrogância e ostentação por parte de um número considerável de governantes. Os governantes estão distantes das aspirações e da vontade popular, os deputados idem; obviamente que o Mpla vai ser penalizado por isso. Como é possível, por exemplo, manterem-se até hoje governadores de província que estão preocupados apenas consigo próprios e com os seus interesses particulares? Como é possível manterem-se ministros cujos ministérios são autênticas múmias, sem qualquer actividade e em nítido prejuízo do desenvolvimento? Como é possível haver deputados que demonstram ser apenas representativos de si próprios e não de quem os elegeu? As pessoas estão atentas a isso; aliás, sentem isso diariamente na carne. Como se sente, por exemplo, um jovem eleitor de uma província do interior onde estive há pouco tempo, que lamentou o facto de ter de pagar aos professores para aprovar? Toda a gente sabe que isso acontece por Angola e ninguém faz nada. A manter-se esta situação, o Mpla vai ser seriamente penalizado nas urnas por esta actuação. Temos que saber que há mais: há províncias onde se o governador for hoje exonerado, a população vai festejar durante alguns dias – vão fazer-se passeatas e a população vai dançar e pular de alegria. Se o Mpla não sabe disso, está a dormir, esquecendo-se que depende do voto popular para se manter no poder. E não nos esqueçamos que quanto mais nos afastamos do termo da guerra, cada vez menos um voto no Mpla será um voto contra outro partido político. O problema está ainda na distribuição do rendimento, em relação ao que só agora se ensaiam passos que se esperam significativos. Há ministros e vice-ministros a fazerem bom trabalho, exemplo, na Administração do Território, nas Pescas e no Planeamento. Há governadores com bom desempenho e boa avaliação da população, como sucede por exemplo no Bié, Malanje e Namibe. Claro que estes são só alguns dos bons exemplos, mas há outros bons governantes, como são os casos dos sectores da defesa, justiça, comunicação social, emprego e assistência social, dentre outros. São apenas alguns exemplos, porque numa entrevista não posso ser exaustivo. Mas há ainda um aspecto importante a reter, que tem a ver com uma recente opção que é de saudar – a da desconcentração orçamental. Uma maior autonomia das províncias e municípios só trará vantagens, desde que haja fiscalização, obviamente. Temos de considerar que a Unita se vem «urbanizando», sem no entanto se desenraizar, o que constitui boa opção para quem pretende um dia assumir o poder. Angola é cada vez mais urbana (ou melhor, suburbana) e só Luanda constitui cerca de um terço dos eleitores. A Unita demonstra agora ter plena consciência disso. O que me parece, entretanto, é que hoje o Mpla ainda ganharia em Luanda, com margem mínima – um pouco acima ou um pouco abaixo dos 50%. Isso hoje, pois se a situação se mantiver como até aqui, o mais certo é que nem sequer ganhe em Luanda no próximo ano, devido a uma crescente opção pela abstenção no seio da sua falange tradicional de apoio. Mas no interior do país o Mpla perderia hoje de forma drástica. Se considerarmos todo o território, o resultado, hoje, seria certamente a derrota eleitoral do Mpla, com festa no interior do país. Mas não estamos ainda em período eleitoral, de modo que o Mpla ainda pode fazer alguma coisa para alterar o actual estado de descontentamento em relação ao governo como um todo e, fundamentalmente, em relação a alguns ministérios e a um bom número de governos de província. Se o Mpla não mexer já em algumas pessoas devidamente identificadas, com mudanças de acordo com as expectativas da população, então a situação piorará nos próximos meses. Esta é a leitura objectiva que faço da actual situação política e social no país e dos consequentes resultados eleitorais. Caso tenha intenção de vencer as eleições, ao nível do executivo (menos a nível central e mais a nível intermédio e de base), o Mpla tem de tirar quem está a dar votos à oposição e colocar quem ainda possa fazer alguma coisa positiva; tem de se investir seriamente no social; os governantes têm de começar a estar perto das pessoas; tem de se estancar o elevado índice de corrupção em escolas, hospitais, centros de saúde e na polícia; tem de se afastar os gestores de empresas públicas que só pensam em si próprios, que fomentam a confusão, que não sabem dirigir pessoas e que não conseguem sequer executar um projecto simples (há-os, inclusivamente, no sector da comunicação social do Estado). Mas tem também de se deixar de hostilizar e de se começar a apoiar devidamente os antigos dirigentes, porque o cidadão pensa nos seguintes termos: «Se fulano, que já foi ministro ou governador, hoje é kandongueiro, que apoio poderei eu amanhã receber do Mpla ou do seu governo?» E se o Mpla perder as eleições? Sosseguem: o mundo não desabará! Muitos cidadãos mostram-se apreensivos com um cenário em que o Mpla perca e se veja, de repente, na oposição. Que consequências adviriam de uma eventual derrota eleitoral do Mpla, depois de mais de trinta anos de poder e exercendo controlo absoluto sobre todos os aspectos da vida nacional, incluindo instituições e empresas? O sociólogo Paulo de Carvalho respondeu a essa questão com a maior serenidade. Ele acha que isso não levaria PC – Temos de ter consciência que ninguém nasceu para exercer eternamente o poder – nem pessoas, nem partidos políticos. Se o Mpla continuar a trabalhar para perder as eleições, é claro que o mundo não vai desabar. E todo esse controlo absoluto terminará. Agora, para que o Mpla se mantenha no poder, tem de trabalhar para isso e não trabalhar a favor da sua oposição, como bom número dos seus dirigentes o fazem, alguns até de forma descarada e sem qualquer chamada de atenção. Um outro aspecto importante tem a ver com a resolução de alguns dos seus problemas internos, em relação ao que o Mpla continua a demonstrar falta de capacidade. Para quando o momento de reconciliação em relação aos vários «afastamentos» registados durante a história do Mpla? O Mpla fez 50 anos e o seu mentor e real fundador nem sequer recebeu uma medalha a título póstumo? Pode não parecer, mas as pessoas comuns estão atentas a isso. E perguntam-se: «Se o Mpla não consegue ultrapassar as suas próprias quezílias do passado, como poderá continuar a governar?» E eu acrescento: se o Mpla esquece até o seu próprio mentor (o autor do manifesto), o que não sucederá consigo um dia que deixe o poder? Uma vez mais demonstrámos a toda a gente que em Angola é possível fazer bem as coisas, com profissionalismo e elevado sentido de responsabilidade. Também será possível um comportamento digno durante a campanha eleitoral e durante as eleições para que Angola prossiga o seu rumo, com normalidade. Independentemente dos resultados eleitorais de 2008, será fundamental a renovação parlamentar, pois temos deputados que há muito deixaram de representar quem quer que seja. Por incrível que pareça, há até deputados que são eternos desconhecidos – como hão-de representar quem os não conhece? Como hão-de representar pessoas cuja vontade desconhecem? E como hão-de liderar ou fazer opinião, se essa opinião não existe ou se é desconhecida dos respectivos eleitores? Nessa altura, o Mpla a estava a preparar-se para uma derrota eleitoral. É claro que hoje a situação é diferente, pois não acredito que alguém de fora do Mpla faça a sua campanha – o contrário sim, ocorre actualmente. Mas se vier a haver mudanças no governo, é preciso que se distingam os lugares de carreira dos lugares políticos. Acredito que isso será tido em conta, até porque hoje também existem funcionários públicos de médio e alto escalão que militam em partidos políticos que não o Mpla. Quer do lado do Mpla, quer do da Unita, parece-me haver consciência da sensibilidade desta matéria. Não me parece, pois, que venha a haver problemas a esse respeito. Talvez a Unita seja o caso de menor afastamento da direcção em relação às estruturas intermédias e de base. Agora, é de esperar que haja quem procure tirar dividendos políticos de qualquer estado de tensão social. Os partidos políticos têm de estar preparados para essa evidência. Têm de estar preparados também para o facto de haver actores políticos na chamada sociedade civil – pessoas com ambição política, que utilizam instrumentalmente órgãos da sociedade civil. E esta não é apenas uma característica de Angola. Não faz sentido. Só age assim quem pretende deliberadamente prejudicar o bom andamento dos serviços e a normalidade. Sei de serviços que ficaram prejudicados devido a tais apreensões de mais de 72 horas, sem motivo e sem qualquer satisfação. Quem terá tomado essa decisão? Como foi essa pessoa penalizada? Senão, vejamos: como sabemos que há delinquentes que circulam e actuam em viaturas, será que na próxima operação se vai apreender tudo quanto é viatura? Não faz sentido. A polícia existe para garantir e não para prejudicar a ordem. Mas é preciso que as competentes autoridades vão mais longe – primeiro, reconhecendo a existência entre nós de crime organizado; depois, combatendo o crime organizado, de forma eficaz. Entretanto, é indispensável também a actuação governamental em prol do bem-estar e do progresso. Para além disso, é preciso que governantes e agentes da autoridade fomentem os bons exemplos na sua prática diária. Tudo isto, em conjunto, vai permitir a prevenção da criminalidade. Se o Mpla vinha dando rajadas nos próprios pés, hoje subiu já para as próprias pernas e coxas. É o Mpla que tem estado a trabalhar contra si próprio. Tem de ser feita a reflexão que o presidente do Mpla recomendou recentemente para que os erros sejam claramente identificados e possam ser rectificados, a bem dos cidadãos e da democracia nascente. É isso que se espera de um partido político que se afirma grandioso, como o Mpla. Também temos de reconhecer que não será fácil neste momento um pacto político entre as principais forças políticas, pois seria este pacto a prevenir sérios conflitos laborais e greves estudantis. Não podemos adivinhar que isso venha a ocorrer, mas penso ter-se já começado a trabalhar no sentido de prevenir algumas dessas convulsões, apesar de haver sectores (como o do ensino superior, por exemplo) onde esse trabalho ainda não começou e, se não houver cuidado, vai até agir-se em sentido oposto. |
