Na nossa última edição publicamos um artigo de investigação da autoria do jornalista angolano em funções na Alemanha, Emanuel Matondo. Esse artigo foi publicado como documentação de pesquisa pela primeira vez na Revista Alemã “Afrika Süd”, Edição nº 1 de 2011. Bonn, afrika süd, zeitschrift zum südlichen Afrika. Nele se podem discortinar as lianas por onde se cose a engenharia financeira do filho do Presidente Eduardo dos Santos.
É tão arrepiante que muitos no seio do próprio MPLA se questiona; “se as coisas se passam desta forma, porque razão o presidente do MPLA, apenas mandou prender o filho de Kwata Kanawa, por ter dado o número da sua conta, para que nela se transferisse dinheiro? E dar número de conta não está tipificado como crime…”
O enquadramento. *Desde Dezembro de 2008, um juiz do tribunal de Genebra, Yves Aechlimann, deu-se ao trabalho de ir à caça das transacções financeiras a fim de reconstituir um verdadeiro sistema de desfalques de fundos em benefício da Presidência angolana. Em 2003, quando a investigação francesa atingiu de chofre a fileira de armas Falcone- Gaydamak, o governo angolano decidiu escolher outras fileiras de corrupção. Elísio de Figueiredo, o homem de confiança do presidente José Eduardo dos Santos, viaja e vai-se instalar na Ásia, em Singapura, enquanto o intermediário francês, Pierre Falcone, de malas aviadas aterra em Pequim.
Com ele vem ter um cidadão francês, chama-se François Rouge, é banqueiro, proprietário do Banco de Património Privado (BPP), e será ele, em pessoa, quem recuperará por essa ocasião uma boa parte da gestão de fundos ocultos angolanos, um montante estimado «entre 400 e 500 milhões de dólares».
Por intermédio de um astuto conhecedor dos circuitos petrolíferos, Jack Sigolet, um antigo da Elf é reconvertido em conselheiro da Presidência República de Angola. A associação funciona perfeitamente até 2007, quando François Rouge é preso e encarcerado na prisão de Baumette, por ordem de um juiz de Marselha no âmbito do caso de um clube de pocker, o cercle Concorde.
Quando saiu da prisão, Rouge tinha perdido o controlo dos fundos angolanos, coisas que acontecem, em detrimento de um trio de abutres de alto voo: Jack Sigolet, antigo braço direito de André Tarallo, o “Monsieur” África da Elf, grande especialista de pré-financiamentos petrolíferos e apresentado também como «conselheiro da República de Angola»; Nicolas Junot, advogado suíço, que muito se interessava por montagens financeiras exóticas ligadas às contas bancárias do Congo-Brazzaville, dito «chefe de orquestra das montagens financeiras» ; e Riccardo Mortara, perito financeiro e piloto de avião, que foi durante anos o piloto pessoal de Alfred Sirven, o “cérebro” de Loïk le Floch-Prigent, ex-PDG (nt: Presidente Director Geral) da ELF,denominado o «factotum».
Entretanto, nas suas minuciosas investigações o juiz Aeschlimann põde reconstituir o perfil duma sociedade offshore titular duma conta bancária em nome da China Dynamic Development, em Hong-Kong, que viu desfilar 116 milhões de dólares proveniente do petróleo, entre 2006 e 2008. Era dinheiro, que serviu, entre outros gastos, para pagar jóias por um montante de 6 milhões de francos suíços, adquiridos por via da sociedade de Mortara, Sonnin, e oferecidos aos mais altos dignitários de Luanda.
Desse pacote de valores monetários a chave de repartição das comissões, como precisa o jornal “Le Temps”, é a seguinte, segundo a Câmara de Acusação dem Genebra (relatório oficial e definitivo):
«75% dos fundos repartidos parece serem destinados ao Presidente angolano,15% para um dos seus ministros e outros intermediários».
Dos restantes 10%, 5% caem nos cofres da Crossoil, a sociedade de Sigolet.
O dinheiro dos petróleos
A última vez que se discutiu sobre o emprego adequado das receitas das vendas de petróleo foi em 2004 por requerimento controverso duma pequena fracção da oposição, antes de ser aprovada uma nova “lei do petróleo”. Esse requerimento foi um insucesso, pois o partido governamental foi de opinião que não havia motivo algum para a alteração dos já aprovados moldes de distribuição das receitas.
Meses depois descobriu-se por acaso que Dos Santos e os seus conselheiros económicos elaboraram em segredo e fora dos debates parlamentares um conceito de um Sovereign Wealth Fund (SWF, Fundo de Riqueza Soberana), semelhante aos modelos da Rússia e dos reinos árabes.
Pelo menos no papel foi fundado um tal tipo de reserva monetária denominado Angola Reserve Fund for Oil (Fundo Angolano de Reserva das Receitas de Petróleo). Ocasião que foi aproveitada para dar mais umas calcadelas à legalidade, pois só depois de isso vir ao de cima é que o então ministro das Finanças, José Pedro Morais, deu conhecimento à imprensa internacional a existência desse fundo monetário e os membros do parlamento do seu partido tiveram autorização para discutir sobre esse assunto. O plano do governo era o de transformar os fundos de receitas das vendas de petróleo em investimentos empresariais ou investimentos em países considerados amigos do regime actual.
No ano de 2006, o governo fundou o Banco Angolano de Desenvolvimento, sustentado por receitas petrolíferas, mas sob o controlo da empresa petrolífera estatal Sonagol e não do parlamento. Mais uma calcadela! E somente no ano 2007 é que o conselho de ministro aprovou a lei de fundação da Angola Reserve Fund for Oil, para onde são depositadas as receitas monetárias que resultam das diferenças entre os preços de venda do petróleo angolano no Mercado internacional e do preço orçamentado no ano de 2007 no valor de 45 US$ por barril.
Essa “fixação de preços angolana” no orçamento do Estado foi um dos maiores problemas durante o processo de implementação da Lei Constitucional. Esse problema existe até hoje. O governo impõe um preço de venda que é extremamente inferior ao do mercado internacional.
Ainda faltam explicações pela parte dos governantes angolanos até hoje em dia onde fica a diferença do valor do preço não referenciado. “The last but not the least” … calcadela da lei angolana!
Não vamos aqui repetir as peripécias de levaram Zenú dos Santos a integrar o elenco directivo do Banco Quantum. Apenas queremos salientar uma vez mais que na sua origem se encontra uma companhia offshore suíça situada no Cantão Zug, o qual, diga-se de passagem, não serve só como “Offshore Jurisdiction” assim como Zurique, Tessin etc., mas também serve de plataforma para negócios e contrabando de petróleos.
A partir de Zug, uma cidade católica com apenas 100.000 habitantes, mas com mais de 27.000 bancos e empresas offshore, muitas delas só com caixas postais, são exercidos quase todos os negócios de matérias-primas, que ditam o Mercado mundial: petróleo, diamantes e outros minerais, produtos agrícolas, sementes, etc. Os conselhos de administração dessas “fundações” duvidosas fazem crer que por terem nos seus órgãos o filho do presidente de um dos países considerado dos mais corruptos do mundo, visam trabalhar nos processos e movimentos do sector público e acabar com a corrupção nos sectores público e privado, mas …também manter a sustentabilidade dos mesmos”!
Essa Quantum Global Wealth Management AG tinha a liderá-la, Jean-Claude Bastos de Morais, um amigo de adolescência de Zénu dos Santos, filho primogénito do PR, porém, até agora, mantém-se um segredo sobre o tipo de actividades que essa firma exerceu até à data actual. Em todo o caso sabe-se que Bastos fundou numa dada altura do ano de 2004 a companhia Quantum Capital S.A., uma empresa autónoma de direito angolano, que dispõe de bancos e serviços de investimentos em Angola em cooperação com parceiros internacionais.
Com a aprovação do novo estatuto de 2007 os seus objectivos foram também alterados. Assim, esses passaram a ser: “Prestação de serviços na área de promoção de vendas, atendimento de clientes consultorias no ramo global de administração de bens; essa instituição pode criar sub-firmas, ser parceira de outras empresas, tem direito a aquisição e hipoteca venda e administração de terras, assim como o de financiamento facturações próprias de terceiros.
Ora é de conhecimento público em Angola, que o Banco Quantum é um banco privado do presidente José Eduardo dos Santos e seus familiares, particularmente do seu filho José Filomeno dos Santos, alias Zénu dos Santos. O objectivo principal desse banco parece ser a administração opaca, ou melhor ainda, a bifurcação e desvio das receitas de petróleo. Como é óbvio, tão enorme é a quantidade de abutres que governam Angola.
Segundo informações da imprensa angolana, Jean-Claude Bastos de Morais e José Filomeno dos Santos, aliás Zenú dos Santos, o filho do presidente angolano, frequentaram a mesma escola na Suíça. Como na altura em que eram colegas de escola, os dois continuam muito amigos. Zenú dos Santos que é tido por alguns como o possível sucessor do presidente José Eduardo dos Santos quando este deixar o poder, tem, alegadamente, fortes conexões tanto com os negócios privados e secretos do seu pai como com o círculo mais poderoso do petróleo de Angola. Depois de terminar os seus estudos de engenharia electrónica em Londres ocupou logo uma posição de destaque na companhia estatal angolana de petróleos Sonangol. O seu pai confiou-lhe também o dossier de criação do Fundo de Petróleo.
Enfim, uma derradeira bofetada ao povo de Angola, em Novembro de 2007 Jack Sigolet e o banqueiro François Rouge, transportados pelo piloto privado italiano, participaram em Dubai num encontro entre o ministro angolano dos Petróleos e Laurent Bazin, sulfuroso intermediário protagonista, também, na novela de bandidos que envolve o Cercle Concorde. A elite angolana em belíssima companhia!
William Tonet & Arlindo Santana
Folha 8