Monday, November 30, 2009

Isabel dos Santos: A face invisível dos negócios angolanos em Portugal

A filha do Presidente angolano José Eduardo dos Santos tem cada vez mais negócios no seu país de origem e em Portugal. Mas nada disso a faz alterar a sua postura de total discrição, o que dificulta a resposta à pergunta: afinal, quem é Isabel dos Santos, e como é que tem montado o seu império empresarial? Por Luís Villalobos

Para Isabel dos Santos, este foi um ano em grande no que diz respeito aos negócios, e ainda falta cerca de um mês para chegar ao fim. Até lá, tem ainda a oportunidade de acrescentar um outro projecto ao pequeno império empresarial que já montou.

Na terça-feira foi lançado para o espaço um satélite da Eutelsat, a partir do Cazaquistão, que permitirá reforçar os serviços prestados pela empresa de comunicações. Entre os seus clientes estão a filha do Presidente angolano José Eduardo dos Santos e a portuguesa Zon. É este satélite que irá permitir o arranque do mais recente negócio da empresária, a televisão por subscrição em Angola através de uma parceria onde detém 70 por cento do capital, ficando a Zon com os restantes 30 por cento.

A analogia é fácil, mas este é apenas mais um sinal de que os investimentos de Isabel dos Santos estão em plena ascensão, sejam em Portugal ou em Angola. O nome de Isabel José dos Santos, ou simplesmente Isabel dos Santos, como é conhecida, é hoje um sinónimo de negócios. E se estes são cada vez mais, o certo é que a empresária, nascida em 1973, filha única do primeiro casamento de Eduardo dos Santos (com Tatiana Kukanova, quando foi estudar para a ex-URSS), não alterou a sua postura de total discrição pública.

Negócios em expansão

Para a primogénita do Presidente angolano, formada em Engenharia em Londres, este foi, de facto, um ano repleto de avanços e concretizações. Após ter comprado ao BCP os 9,7 por cento que o banco detinha no BPI, por 164 milhões de euros, colocou em Abril um gestor da sua confiança, Mário Silva, no conselho de administração da instituição financeira liderada por Fernando Ulrich.

O banco BIC Portugal, onde detém 25 por cento e faz parceria com Américo Amorim (dono de outros 25 por cento), terminou em Junho a sua primeira fase de expansão no mercado nacional com a abertura do sexto escritório em Braga. E foi através deste banco que Isabel dos Santos assumiu recentemente o seu primeiro cargo numa empresa no território português, fazendo agora parte do conselho de administração do BIC Portugal, gerido por Luís Mira Amaral. Uma forma de acompanhar mais de perto os seus investimentos.

Na Galp Energia, onde está indirectamente através da Amorim Energia (é sócia da Sonangol na Esperaza, empresa com sede na Holanda, onde tem 40 por cento do capital, e que por sua vez é accionista de referência da Amorim Energia), é dona de seis por cento da petrolífera. Esta percentagem, que a torna na quarta maior accionista, já lhe rendeu cerca de 56 milhões de euros em dividendos desde 2006 até meados deste ano.

A par da Sonangol, Isabel dos Santos é a maior investidora em Portugal. Segundo a consultora AT Kearney, os investimentos da empresária e da petrolífera estatal angolana valiam, no início de Setembro, três por cento do principal índice da bolsa portuguesa, o PSI20, o que equivale a 1813 milhões de euros. Enquanto não ocorre uma maior distribuição de riqueza em Angola, com o despontar de classe média e novos empreendedores, Isabel dos Santos continua a fazer parte do sector privado angolano, que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) caracteriza com sendo “dominado por uma elite muito restrita, ligada aos partidos”.

Objectiva e implacável

No único depoimento escrito que lhe é conhecido em Portugal, um direito de resposta que enviou à Sábado, em 2007, a propósito de um artigo da revista que motivou mesmo um processo, Isabel dos Santos fez questão de sublinhar a sua independência face a ligações familiares. “Não represento nenhum interesse e não represento ninguém, a não ser a mim própria. Há mais de uma década escolhi uma carreira diferente e independente da minha família”, afirmou. O certo é que os seus dois meios-irmãos, “Tchizé” dos Santos e José Paulino dos Santos, são menos dados às lides de investimentos empresariais. Ligados à Semba Comunicações, uma consultora, tiveram ambos uma participação no angolano Banco de Negócios Internacional (BNI), mas já venderam as suas acções.

A discrição de Isabel dos Santos, por oposição à visibilidade crescente dos seus negócios, segundo afirma quem lidou com a empresária, está relacionada com a sua própria personalidade. Gosta de conversar, de negociar, ver obra feita e os investimentos a darem frutos, mas sente-se pouco à vontade quando exposta publicamente e revela muitas reticências no que toca a lidar com a comunicação social. Algo que é visível mesmo em termos de imagem, já que há poucas fotografias suas disponíveis. A mais distribuída, nomeadamente na Internet, foi feita por um fotógrafo da agência Lusa em 1992.

Adversa a grandes aparições, sente-se como peixe na água quando há algo objectivo para tratar, como numa reunião de negócios. Mas o facto de não gostar de ser uma figura pública não quer dizer que deixe de marcar presença em determinados eventos, como foi o caso do casamento da filha do presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, em Maio deste ano.

Nas suas variadas deslocações a Portugal, que aproveita para visitar conhecidos e lidar com os responsáveis pelos seus investimentos, tanto fica alojada no apartamento que comprou em Lisboa como opta por ficar em hotéis, conforme seja mais prático. Uma outra cidade que faz questão de visitar é Londres, seja pela sua anterior ligação à capital inglesa, seja porque é aqui que reside a sua mãe. Tida como uma pessoa simpática e afável, também há quem a descreva como algo fria, precisa e implacável nos processos de negociação. “Extremamente dinâmica”, “objectiva” e “muito profissional”, bem como “bonita” e detentora de “bom gosto”, foram outras características de Isabel dos Santos apontadas ao P2 por responsáveis ligados aos negócios entre Portugal e Angola que preferiram não ser identificados.

As últimas notícias dão-na como futura parceira da Sonae na entrada do grupo português (proprietário do PÚBLICO) no mercado retalhista angolano. Primeiro, foi a revista Focus em Junho, que mostrava mesmo fotografias da empresária, acompanhada pelo marido, Sindika Dokolo, e por gestores da Sonae, a visitar o interior de um hipermercado Continente.

Depois, o Diário Económico fez manchete há cerca de duas semanas a dar o negócio como certo. A Sonae reagiu, afirmando que está atenta a oportunidades, mas que ainda não existe “qualquer acordo firmado ou prestes a ser firmado de investimento neste mercado”. Ou seja, este é um processo de namoro negocial entre duas partes que ainda agora começou, mas que ambas gostavam de ver concretizado.

Para a Sonae, é todo um novo mercado, num país que tem vindo a crescer economicamente desde o fim da guerra e onde falta oferta, seja em qualidade seja em quantidade. Para Isabel dos Santos, é uma nova oportunidade de expandir, ainda mais, os seus negócios.

De Luanda a Portugal

Foi na sua terra natal que começou a carreira empresarial, facilitada ao nível dos contactos e influências por ser filha do responsável máximo do partido do poder, o MPLA. Não é fácil perceber ao certo até onde é que, neste país, se alargaram os seus negócios, mas tudo terá começado no final de década de 90, ficando responsável pela empresa que geria a recolha de lixo na zona de Luanda. Juntamente com outras personalidades afectas ao regime, o seu nome surge ligado também a empresas que operam nas áreas da agricultura, dos diamantes, do petróleo e do gás, da indústria e da restauração. Mas torna-se complicado confirmar oficialmente todos os investimentos por falta de informações, até porque Isabel dos Santos recusa dar entrevistas, não tendo o P2 sido uma excepção. E essa postura é respeitada e levada à letra pelos que lhe estão mais ligados, como o sócio Américo Amorim, Mário Silva, que gere os seus investimentos em Portugal através da Santoro, e Mira Amaral, o dinamizador do BIC Portugal. Nenhum deles se mostrou disponível para responder às perguntas sobre a empresária.

Certo é que os negócios começaram a ganhar dimensão e visibilidade a partir do início desta década. Em 2001 a “princesa”, como é conhecida em Angola, lançou, via Geni, a Unitel, empresa privada de comunicações móveis, onde tem como sócios a Portugal Telecom e a Sonangol.

Tendo recebido a licença por parte do Governo através de adjudicação directa, a Unitel é hoje líder de mercado e a maior empresa privada de Angola. Foi também nesse ano que se fundou o Banco Espírito Santo Angola (BESA), onde Isabel dos Santos detém parte do capital.

As ligações a Portugal começam então a intensificar-se, até porque o BES é accionista de referência da PT. O passo em frente dá-se em 2005, quando lançou em Angola o Banco Internacional de Crédito (BIC) juntamente com Américo Amorim e outros sócios como Fernando Telles, presidente da instituição, e Sebastião Lavrador, ex-governador do Banco Nacional de Angola.

O banco, que contou com muitos quadros que estavam ligados ao Banco de Fomento de Angola (BFA), cresceu rapidamente e é hoje um dos maiores do mercado angolano, tendo alargado a sua actividade a Portugal. No ano passado, voltou a reforçar os investimentos no mercado angolano, tendo a Unitel adquirido 49 por cento do BFA, a maior instituição financeira local e que era detida a 100 por cento pelo BPI. Um processo que contou com a pressão do Governo angolano, que exigiu a abertura do capital dos bancos detidos por estrangeiros a investidores locais.

O amante de arte africana

Investidora de longo prazo, Isabel dos Santos reforçou as suas ligações a Américo Amorim entre 2005 e 2006. Entrou no capital da angolana Nova Cimenteira, substituindo a Teixeira Duarte, aliada a Amorim. Pouco tempo depois fez parte do consórcio Amorim Energia, a quem o Estado vendeu 33,3 por cento da Galp Energia, estreando-se assim em Portugal e diversificando os seus negócios de Angola para a Europa.

O seu marido, o congolês Sindika Dokolo, é um dos administradores não executivos da Amorim Energia. Isabel dos Santos casou-se com ele em Dezembro de 2002, numa cerimónia que reuniu perto de 800 pessoas em Luanda, incluindo diversos portugueses, sendo metade dos convidados familiares dos noivos. Sindika Dokolo tem sensivelmente a mesma idade de Isabel dos Santos (nasceu em 1972) e, tal como a filha de Eduardo dos Santos, também nasceu numa família privilegiada.

Filho de Sanu Dokolo, milionário congolês que fundou o Banco de Kinshasa, e de Hanne Kruse, dinamarquesa, Sindika viveu diversos anos em Paris. Embora seja formado em Economia, tem sido mais conhecido pelas suas ligações à arte contemporânea africana. Herdou dos pais parte do fascínio pela arte, tendo ficado com uma colecção de arte congolesa do século XIX. Mas o grande marco foi a aquisição, há perto de oito anos, do espólio do alemão Hans Bogatzke, que tinha uma das mais interessantes colecções privadas de arte africana contemporânea.

Dono de uma fundação com o seu nome, com sede em Luanda, Sindika Dokolo tem vindo a enriquecer o seu património cultural como novas aquisições, incluindo obras de Jean-Michel Basquiat. “Esta é uma colecção africana, não de arte africana”, afirmou uma vez, citado no sítio de Internet da fundação.

Organizador de exposições, tem como objectivo abrir o primeiro centro de arte contemporânea em Luanda dentro de três anos e colocar a cidade que escolheu para viver com Isabel dos Santos no mapa do circuito de arte mundial.

Em 2006 escreveu: “A ideia de que, para o século XXI, a contribuição de África na história de arte mundial se reduziria ao artesanato decorativo gela-me o sangue. Ou talvez não. Faz-me ferver.” Não deixa, no entanto, de ter um papel activo a nível empresarial ao lado de Isabel dos Santos e, além de marcar presença na Amorim Energia, detém, entre outros negócios, a Amigotel, empresa retalhista de comunicações com relações comerciais com a Unitel.

Entre os investimentos e activos que já tem nas áreas das telecomunicações, banca, energia e indústria, Isabel dos Santos é hoje uma das mulheres mais ricas de Angola (senão mesmo a mais rica) e da África subsariana. Tudo indica que pretende continuar a crescer no mundo dos negócios e que, à medida que for ganhando dimensão, mais dificuldades irá sentir para manter a sua postura de reserva total face à opinião pública.

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Monday, November 2, 2009

NEGOCIOS “OPACOS” BLAIR CONDICIONAM A SUA AMBIçAO EUROPEA

Numa das esquinas de Grosvenor Square, em Mayfair, palco da primeira embaixada dos EUA em Londres, encontra-se uma bela mansão do século XVIII que é também o cenário para onde convergem numerosos elementos da vida pós-política de Tony Blair.

Apesar de nesta zona o preço do metro quadrado no segmento dos escritórios ser um dos mais caros do mundo, Blair raramente desfruta do elegante escritório e das respectivas vistas. Regra geral, ausenta-se três semanas por mês para percorrer o planeta de lés a lés na defesa de causas como a paz e a caridade, ou pura e simplesmente para ganhar dinheiro. “Primeiro-ministro na reforma? De modo algum, não se sente um ‘reformado’”, diz um assessor.

O escritório é uma espécie de “sala do trono” de um vasto império que reúne interesses empresariais e caritativos, que além de complexo é inconveniente pelo facto de Blair alimentar a ambição de vir a ser o primeiro presidente da União Europeia (UE). Trata-se de um império assente numa imensa rede de negócios e parcerias, cuja actividade abarca desde a gestão de empresas com fins lucrativos à supervisão de donativos a instituições de caridade por parte de figuras como Bill Gates ou Lord Sainsbury. A estrutura bizantina deste império faz com que as finanças do ex-primeiro-ministro britânico sejam hoje algo opacas.

Tony Blair está longe de ser o primeiro homem de Estado “reformado” cujos projectos pessoais despertam o interesse do público. Nos EUA, esse interesse, que abarca todo um leque de figuras políticas, de Henry Kissinger a Bill Clinton, ganhou contornos de passatempo social obrigatório. A escala e abrangência do seu império é, na prática, aquilo que o torna tão atractivo, apesar dos seus detractores criticarem a proximidade desconfortável entre os seus deveres oficiais, interesses comerciais crescentes e campanhas de angariação de fundos.

O mais importante, porém, é saber se a nova vida do antigo líder dos Trabalhistas é compatível com o cargo que ambiciona vir a desempenhar na União Europeia. Os líderes europeus poderão não ter interesse em nomear para Presidente da UE um homem cujos negócios são tão complexos e, no dizer de alguns, indistintos. Isto porque a sua vida pós-política tem incluído encontros e parcerias comerciais com figuras controversas como Paul Kagame, presidente do Ruanda, ou o líder líbio Muammar Kadafi.

Mas não só. Também importa saber se estará disposto a aceitar as condições inerentes ao cargo, que obrigariam à reformulação total dos seus negócios. Grande parte do seu império teria de ser desmantelado mais depressa do que foi construído. Ninguém sabe quantos milhões ganha, mas se aceitar ser Presidente da UE terá, seguramente, muito a perder. Só este ano, visitou mais de 20 países, da Ásia Oriental à África Central, em muitos casos mais do que uma vez. No entanto, nenhuma região reflecte melhor a sua vida como figura pública, angariador de fundos e empresário do que o Médio Oriente. O trabalho que tem desenvolvido como enviado especial do Quarteto (EUA, UE, ONU e Rússia) para a região é, sem dúvida, a sua missão mais emblemática. Blair reserva pelo menos dez dias por mês para levar a cabo essa tarefa que, muitas vezes, também envolve a angariação de fundos ou pressões no sentido da reabertura de ‘checkpoints’ na Faixa de Gaza. Uma missão delicada, mas que é bem-vista no terreno.

Este é o único papel público que verdadeiramente desempenha. O problema é que alguns deveres diplomáticos andam de mãos dadas com os seus interesses comerciais na região. A prioridade de Blair quando visita a Península Arábica e a Ásia Central vai para a angariação de fundos, no entanto, vezes houve em que aproveitou essas oportunidades para divulgar o seu trabalho com instituições de caridade ou para apresentar a sua mais recente parceria privada, a Tony Blair Associates (TBA).
O seu trabalho como facilitador ao mais alto nível tem sido alvo de fortes críticas. O deputado conservador Daniel Kawczynski, presidente do grupo inter-parlamentar para a Líbia da Câmara dos Comuns, considera que o trabalho de Blair “é condenável por poder capitalizar o facto de ter sido primeiro-ministro. A isto acresce que não fazemos ideia do tipo de empresa que é a TBA”. O seu trabalho na área da filantropia também passou a estar sob apertado escrutínio, visto as instituições envolvidas não serem obrigadas a divulgar o nome dos doadores e se desconhecer a origem da maior parte dos fundos doados. Em suma, é impossível dizer se as respectivas actividades se justapõem aos trabalhos que desenvolve um pouco por todo o mundo.

Um dos exemplos que melhor ilustra a delicadeza da questão é o trabalho ‘pro bono’ que Blair tem levado a cabo em África. O projecto “Governance Initiative” visa, em concreto, ajudar os presidentes da Serra Leoa e do Ruanda a atrair investidores estrangeiros e a desenvolver políticas para os seus países. O aspecto mais intrigante desta instituição ainda em fase embrionária - as autoridades britânicas podem, a qualquer momento, reconhecer o seu estatuto de instituição para fins caritativos -, é recolher os fundos necessários à sua actividade através da Windrush Ventures Nº 3, uma parceria com fins lucrativos de que Blair é proprietário e que não divulga os resultados das suas actividades.

Sabe-se que a Windrush recebeu 2,4 milhões de dólares (1,6 milhões de euros) da Bill and Melinda Gates Foundation destinados à Serra Leoa e 1,5 milhões de libras (1,6 milhões de euros) para o Ruanda doados pela Gatsby Charitable Foundation, criada por Lord Sainsbury. É possível dizer, através das contas das outras duas ‘ventures’ da Windrush Nº 3, que a organização gerou retornos na ordem dos 6,4 milhões de libras (7,1 milhões de euros) e lucros no valor de 350 mil libras (394 mil de euros). No entanto, um porta-voz de Blair garante que a Governance Initiative “não tens fins lucrativos e que é gerida em conformidade com os termos definidos pelos fundadores, nos quais se estabelece a existência de uma conta bancária à parte e a entrega regular aos ‘stakeholders’ de relatórios sobre a gestão financeira da organização”.

O ‘modus operandi’ do “império Blair” pode criar complicações práticas ao exercício de funções como Presidente da UE, cargo criado pelo Tratado de Lisboa e ao qual se aplica o mesmo código de conduta que aos comissários europeus.

Blair sabe que terá de fazer sacrifícios se optar por regressar à linha da frente do serviço público, designadamente “abdicar de todo e qualquer trabalho remunerado ou não remunerado”. As conferências pagas - uma das actividades mais lucrativas de Tony Blair - terão de acabar, embora possa manter cargos honoríficos em instituições de caridade, na condição de não exercer qualquer poder de decisão na sua gestão. Citando um diplomata europeu: “Blair pode manter a sua fé e pouco mais”.

Resumindo, tudo aspectos danosos para o “império Blair”. As empresas comerciais - como a TBA, que presta serviços de consultoria ao JP Morgan e à Zurich Financial - teriam de ser encerradas ou totalmente transformadas. Mais. A actividade das ‘ventures’ ligadas à Windrush também teria de ser suspensa. Tal como a comissão que Blair recebe do Washington Speakers Bureau, que se estima rondar um milhão de libras (1,1 milhões de euros), no caso de ficar indisponível para conferências pagas.

Depois de reformular o seu império, Blair teria, na qualidade de Presidente da UE, de apresentar uma declaração sobre os seus interesses financeiros que incluísse uma lista exaustiva de toda a sua actividade empresarial desde que cessou funções como primeiro-ministro. Lista essa que teria, forçosamente, de incluir todos os serviços prestados a clientes que possam, potencialmente, resultar num conflito de interesses.
Outro pormenor importante: as suas memórias. A Random House adiantou a Tony Blair 4,6 milhões de libras (5,16 milhões de euros) pelo seu livro de memórias. A publicação está prevista para breve, mas poderá coincidir com a saída do seu rival político e “parceiro sucessor”, Gordon Brown, de Downing Street. As regras europeias não prevêem qualquer mecanismo que ponha cobro a esta situação caso Blair venha a ser nomeado Presidente da UE, desde que “não exista qualquer relação com os seus deveres e funções”.

As instituições de caridade a que está ligado teriam de ser reestruturadas a fim de eliminar os seus poderes de gestão nas mesmas, o que quer dizer que ficariam privadas do seu mais dinâmico angariador de fundos e teriam de suportar a elevada renda do escritório de Mayfair, paga na quase totalidade pelos negócios empresariais de Blair.

Amigos mais próximos dizem que o ex-primeiro-ministro britânico “ainda não decidiu cabalmente” sobre a possibilidade de vir a ser Presidente da UE. Com tanta coisa em jogo na sua “nova vida”, compreende-se que pondere seriamente se vai dar esse passo. “Gosta de dinheiro como todos nós, mas não é isso que o move. Creio que o serviço público, o poder, é a sua maior motivação”, refere um associado.

Tradução de Ana Pina

Exclusivo Financial Times

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Saturday, October 31, 2009

Descubra as Universidade que as empresas preferem

O Diário Económico lançou um inquérito às maiores empresas portuguesas para saber que cursos e universidades escolhem na hora de recrutar e revela agora as respostas.

A Universidade Técnica de Lisboa surge na 1ª posição como a preferida das cinquenta empresas que responderam ao inquérito (ver infografia). Seguem-se a Universidade Católica, a Universidade do Porto, o ISCTE e a Nova de Lisboa. Se olharmos para os resultados por sectores de actividade os ‘ranking’ mudam significativamente. O ISCTE e a Universidade do Porto lideram a tabela das preferidas no sector dos serviços. A Católica surge no topo da lista na indústria alimentar e na área das consultoras. O Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa é o preferido nas construtoras e fabricantes de Automóveis. O ISEL e a Escola Superior de Tecnologia de Setúbal são os politécnicos a surgir na lista. Nas privadas, as universidades mais referidas são a Lusófona, Lusíada, Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e IADE.

Se olharmos para os resultados por licenciaturas, Gestão é o curso mais procurado, seguindo-se Economia. Os licenciados em Gestão parecem estar a ganhar terreno aos engenheiros, que tradicionalmente eram contratados para ocupar cargos de gestão das empresas. Mas o curso de Engenharia deverá continua a ser um passaporte garantido para o emprego no futuro. “Faltam, actualmente, cerca de 50 mil engenheiros na Alemanha e o défice deve chegar aos 200 mil em 2017″, refere Pedro Henriques, director de Corporate and Human Resources da Siemens Portugal. Uma tendência que também se verifica em Portugal. O resto da lista dos cursos mais procurados é preenchida por uma longa lista de engenharias e alguns cursos de gestão.Empresas preferem cursos pré- Bolonha

Revelador é o facto da maioria das empresas rejeitar os cursos de três anos e preferir contratar licenciados pré-Bolonha ou diplomados com o mestrado. A falta de maturidade é a justificação apontada para este fenómeno. “Apesar da preparação técnica e científica ter vindo a melhorar, hoje somos confrontados com jovens mais imaturos” diz Ana Medeiros, directora de Recursos Humanos do Grupo Martifer.

Universidades devem apostar nas ‘soft skills’
Quando questionadas se as universidades preparam os licenciados para o mercado de trabalho, a maioria das empresas reconhece uma aproximação das formações às necessidades do mercado de trabalho. Mas quase todas apontam a necessidade das escolas reforçarem a componente de desenvolvimento comportamental e ‘soft skills’.

“Nota-se alguma evolução mas não a suficiente”, refere Filomena Pascoal, do Gabinete de Comunicação e Imagem da Caixa Seguros. Para a PT as universidades preparam bem “na perspectiva do ‘know how’ técnico e capacidade de aprender e de trabalho, mas pouco em competências comportamentais e de liderança”.

Fernanda Moura, directora de Recursos Humanos da Edifer sublinha que os alunos deveriam ter “mais trabalhos/experiência prática e formação comportamental, sobretudo a nível de liderança, planeamento e gestão do tempo”.

Também Isabel Peres, directora de recursos humanos da Mota-Engil, afirma que as universidades “descuram por vezes a questão das ’soft skills’, determinantes na performance de um jovem quadro em início de carreira”. A falta de experiência prática é outro das falhas apontadas. “É lamentavelmente curioso que a maioria dos novos engenheiros civis tenha tido um contacto muito reduzido com a realidade de uma obra durante o seu percurso académico”, diz Fernanda Ribeiro, da direcção de recursos humanos da Soares da Costa.

Para a BP Portugal, as universidades deveriam “criar as condições ideais para que os alunos possam tão cedo quanto possível integrar projectos, ainda que pontuais com parte integrante dos currículos dos cursos que enriqueçam e aproximem o seu conhecimento da realidade empresarial”

Outra das soluções apontadas são os “estágios de longo curso” ou “parcerias com empresas que pudessem ministrar seminários sobre, algumas temáticas” que tornem os cursos “mais ajustados à realidade do mercado de trabalho” propõe Carla Marques, do Grupo Select Vedior. Até porque os licenciados continuam a ter uma imagem distorcida da realidade das empresas. “Os alunos saem da universidades com um grau de expectactiva muito elevado, por vezes inadaptado às características do mercado de trabalho”, refere Ana Rita Pinho Branco do Montepio Geral. 

DN

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Sunday, October 25, 2009

Hitler: A biografia definitiva

Pré-publicação: Ian Kershaw revisita o indivíduo medíocre que se tornaria no maior monstro da história.

Alois Schicklgruber, o homem que viria a ser pai de Adolf Hitler, nasceu em 1837 e o primeiro da família a ascender na escala social - em 1875, já era inspector alfandegário -, mudou o nome para Alois Hitler em 1976. Nesse ano, Klara Pölzl, então com 16 anos, deixou a família e mudou-se para Braunau am Inn como criada de servir da família de Alois, o qual casaria três vezes - primeiro com Anna Glasserl; depois, com Franziska (Fanni) Matzelberger, que podia ser sua filha e morreu de tuberculose aos 23 anos. O corpo dela mal arrefecera e Klara já engravidara de Alois, com quem casou em 1885. Quatro anos depois, às 18.30 de 20 de Abril, sábado de Páscoa, Klara deu à luz o quarto filho e o primeiro a sobreviver à infância: Adolf.

Alois auferia rendimento sólido, cujo agregado era composto pelos dois filhos de Fanni, por Adolf e o irmão mais novo, Edmund, a irmã Paula e a tia Johanna. A família desfrutava do conforto da classe média, mas não era feliz. Alois era o arquétipo do funcionário público provinciano - pomposo, orgulhoso do estatuto, mal-humorado e totalmente dedicado à profissão. Tinha mau feitio, com explosões imprevisíveis; em casa, era autoritário e opressivo, marido dominador e pai inflexível, imperioso e facilmente irritável.

A falta de afecto do pai sentida pelas crianças era compensada pela mãe. Segundo o médico judeu dela, Eduard Bloch, Klara Hitler era “simples, modesta e afável. Alta, tinha cabelo acastanhado, impecavelmente entrançado, rosto oval e olhos azuis-acinzentados expressivos”. Submissa, reservada e calada, ia à igreja com frequência, dona-de-casa escrupulosa que cuidava exemplarmente bem dos filhos e enteados. A morte, em poucas semanas, dos primeiros três filhos durante a infância, e o falecimento do quinto, Edmund, em 1900, ainda não tinha 6 anos, foram-lhe extremamente dolorosas, desgostos acrescidos por um marido irascível, insensível e dominador.

Não admira que, tristonha e desgastada, tenha dedicado um amor protector e sufocante, quase devoto, aos filhos sobreviventes, Adolf e Paula. Eles correspondiam-lhe, em especial Adolf. “O amor à mãe era a característica que mais se destacava nele”, escreveu Bloch. “Eu nunca tinha visto apego tão intenso”. Adolf escreveu no Mein Kampf: “Respeitei o meu pai, mas amei a minha mãe”. Nunca se separou do retrato dela até aos últimos dias no bunker. A mãe terá sido a única pessoa que amou verdadeiramente.

Os primeiros anos de Adolf passaram sob o escudo protector e sufocante da mãe ansiosa, num ambiente dominado pela presença ameaçadora do pai disciplinador, contra cuja ira a submissa Klara era impotente. Paula descreveu-a como “terna e dócil, o elemento compensatório entre um pai excessivamente duro e umas crianças vivazes algo difíceis. Em especial, o Adolf desafiava o meu pai, levando-o a proceder com extrema dureza e éramos espancados todos os dias”. O próprio Hitler contava que o pai era dado a explosões repentinas que resultavam em castigos corporais imediatos. A pobre mãe, que tanto amava e a quem era tão apegado, vivia na aflição constante devida às sevícias a que o filho era sujeito, e aguardava no lado de fora da porta enquanto ele era espancado.

Sob a superfície, o homem que Hitler seria estava em formação. O menosprezo da sobranceria paternalista que teria pela submissão feminina, a sede de dominar os outros (acalentando o imaginário do chefe como figura paternal inflexível e autoritária), a incapacidade de relações pessoais profundas, a brutalidade fria para com a espécie humana e - não menos importante - a capacidade de sentir um ódio tão profundo que, decerto, terá espelhado a aversão por si próprio, oculta pelo narcisismo extremado que era o contraponto, terão raízes nas circunstâncias familiares do jovem Adolf. Os traços exteriores da primeira fase da sua vida não indicam em nada, porém, o que viria a acontecer; aquele ambiente familiar, aliás, compaixão pela criança exposta a tais circunstâncias.

Em 1898, os Hitler mudaram para Leonding, arredores de Linz. Por essa altura, Adolf ficou obcecado pelas histórias de Karl May, contos populares do Oeste Selvagem que empolgavam milhares de jovens. A maior parte pô-las de lado com as fantasias da meninice; mas, para Adolf, o fascínio por May nunca esmoreceu e, já chanceler do Reich, continuava a ler as suas histórias, recomendando-as aos generais.

Em 1900, todavia, os dias de despreocupação estavam a chegar ao fim. Devido à morte, por sarampo, de Edmund, as ambições de os descendentes fazerem carreira residiam agora em Adolf, sendo fonte de tensões entre pai e filho. Iniciados os estudos secundários em Setembro, a transição foi-lhe difícil: ia a pé até à escola em Linz, jornada de mais de uma hora na ida e na volta, deixando-lhe pouco tempo para amizades fora do círculo escolar, onde não tinha amigos chegados nem os procurava. E o esforço mínimo que a primária lhe exigira já não era suficiente - as suas notas, até deixar a escola em 1905, oscilaram entre o mau e o medíocre.

O director da antiga turma, Eduard Huemer, recordou Adolf como magro e pálido e a quem faltava aplicação, incapaz de se adaptar à disciplina escolar; caracterizou-o como teimoso, despótico, dogmático e colérico - recebia as críticas dos professores com insolência mal disfarçada. Com os colegas, era autoritário e figura dominadora em brincadeiras de mau gosto que denotavam imaturidade, o que Huemer atribuía à obsessão pelas histórias de May, associada à tendência para desperdiçar tempo. Hitler deixaria a escola “imbuído de um ódio elementar” para com ela e, mais tarde, troçou e escarneceu dos professores. Só o de História, Leonard Pötsch, lhe mereceu elogios no Mein Kampf por lhe despertar o interesse através de narrativas vívidas e lendas de heroísmo do passado da Alemanha, germinando um nacionalismo germânico fortemente emocional.

Aos problemas de adaptação de Adolf acrescia a deterioração na relação com o pai. Para Alois, as virtudes da carreira de funcionário público eram irrefutáveis, mas colidia na rejeição irredutível de Adolf. Quanto mais este resistia, mais autoritário e persistente se tornava o pai. Igualmente obstinado, Adolf queria ser artista - o que para Alois, austero funcionário público, era impensável. Quando morreu, em 1903, o conflito por causa do futuro de Adolf acabou. O seu aproveitamento continuou medíocre e, em 1905, com 16 anos, serviu-se de uma doença - fingida ou exagerada - para persuadir a mãe a deixar a escola de vez.

Entre essa altura e a morte da mãe, em 1907, Adolf levou uma vida de ociosidade parasítica - financiado e bem cuidado, mimado por uma mãe extremosa, com quarto próprio no apartamento de Linz onde a família vivia. A mãe, Paula e a tia Johanna acudiam a todas as necessidades, lavando, limpando e cozinhando para ele - a mãe até lhe comprou um piano de cauda em que teve lições quatro meses. Passava o dia a desenhar, a pintar, a ler ou a escrever “poesia”; à noite ia ao teatro ou à ópera; e sonhava acordado, fantasiando o futuro como artista de nomeada. O estilo de vida indolente, a grandiosidade das fantasias, a falta de disciplina no respeita a um trabalho sistemático - características do Hitler posterior - viram-se nesses dois anos em Linz, que referirá como “os dias mais felizes, um sonho maravilhoso”.

O único amigo da altura, August Kubizek (“Gustl”), filho de um estofador, descreve-os bem. Conheceram-se em 1905, na ópera, gosto partilhado por Adolf, fanático de Wagner. Gustl era impressionável; Adolf procurava a quem impressionar. Gustl era cordato e submisso; Adolf era determinado e dominador. Gustl não tinha convicções; Adolf tinha-as sobre tudo. “Ele tinha de falar”, recordou Kubizek “e precisava de alguém que o ouvisse”. Gustl, que se descrevia como sonhador e calado, tinha em Hitler, opinioso, presunçoso e “detentor da verdade”, o contraste ideal.

Mais do que a música, o tema de conversa de ambos era arte e arquitectura no seu expoente máximo. Melhor, o tema era Adolf como futuro génio artístico. O jovem Hitler extasiava Gustl com as visões sobre si próprio e, vagueando por Linz à noite, preleccionava sobre a necessidade de demolir, remodelar e substituir os edifícios públicos centrais, mostrando esboços dos seus projectos de reconstrução. Em 1906, persuadiu a mãe a custear-lhe uma viagem a Viena, onde passeou como turista e reforçou a ideia de que teria de aperfeiçoar a carreira na Academia de Belas-Artes de Viena.

Esse mundo fantasioso incluía uma jovem que nem sequer o conhecia. Stefanie, requintada menina de Linz simbolizava, para Hitler, ideal a ser admirado à distância e não abordado em pessoa, figura de fantasia que estaria à espera do grande artista para contraírem matrimónio, após o que viveriam numa magnificente villa de cujo projecto ele se encarregaria.

Aos 18 anos, Adolf continuava a vida de indolência sem perspectivas, já com a mãe gravemente doente, com cancro da mama. Fora operada por Bloch, que descreveu Adolf como macilento e de aspecto débil, que “vivia dentro de si próprio”, e preocupado com Klara. Chorou quando Bloch lhe deu as más notícias - a mãe tinha pouca probabilidade de sobreviver - e tratou-a durante a doença, angustiado pelas dores intensas que ela sofria.

Mas, apesar do estado materno cada vez mais débil, não adiou a mudança para Viena. Partiu em 1907, a tempo do exame de admissão à Academia de Belas-Artes. Eram 113 candidatos; só 28 foram bem sucedidos - Hitler não constava deles. Nunca lhe ocorreu que podia chumbar: estivera, escreveu, “tão convencido de que teria êxito que, quando soube que fora rejeitado, senti-me atingido por um raio”. O golpe no seu orgulho foi tão grande que omitiu o fracasso a Gustl e à mãe.

Regressou a casa em Outubro, quando o estado da mãe era irreversível. Profundamente afectado, Adolf não podia ter sido mais extremoso: Paula e Bloch atestaram a dedicação e os cuidados “infatigáveis” que prestou à mãe moribunda, cuja saúde agravou rapidamente no Outono. A 21 de Dezembro de 1907, com 47 anos, Klara faleceu serenamente. Bloch garante jamais ter visto “ninguém tão prostrado de desgosto quanto Adolf Hitler”. Tinha perdido a única pessoa por quem alguma vez sentira afecto genuíno.

A rejeição da Academia e a morte da mãe, em menos de quatro meses, foram um rude golpe duplo para o jovem Hitler. Abruptamente, fora afastado do sonho de uma vida sem esforço até à fama de grande artista, perdendo a única pessoa de quem dependia emocionalmente quase ao mesmo tempo. Apesar da drástica alteração de perspectivas e circunstâncias, quando voltou para Viena, em Fevereiro de 1908, o seu estilo de vida - existência despreocupada num mundo de fantasia pontuado pelo egocentrismo - não se alterou. Todavia, a mudança do provincianismo acolhedor de Linz para o cadilho político e social que era Viena, assinalou uma transição crucial. A vivência na capital austríaca influenciaria decisivamente a formação dos seus preconceitos e fobias.

DN

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Friday, October 9, 2009

Nobel da Paz para Barack Obama

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recebeu hoje o Prémio Nobel da Paz “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Obama “acolheu com humildade a selecção do comité”, disse o assessor de imprensa da Casa Branca, Robert Gibbs.

“O comité deu muita importância à visão e aos esforços de Obama com vista a um mundo sem armas nucleares”, declarou o presidente do comité, Thorbjoern Jagland. “Só muito raramente uma pessoa conseguiu como Obama capturar a atenção do mundo e dar às pessoas esperança para um futuro melhor”, afirmou ainda o comité, avaliando que “a diplomacia [de Obama] é fundada no conceito de que aqueles que lideram o mundo têm de o fazer tendo por base valores e atitudes que são partilhados pela maioria da população mundial”.

Quando o jornalista da agência Reuters comentou com David Axelrod, um dos principais conselheiros de Obama, que muitas pessoas no mundo estavam estupefactas com o anúncio, este respondeu “Como nós”.

Obama fez do desarmamento nuclear topo das prioridades da sua política externa – nomeadamente relançando negociações com a Rússia e fazendo mexer o tabuleiro internacional no sentido de pressionar as duas consensuais “potenciais ameaças” nucleares (Irão e Coreia do Norte) – além de vir a envidar esforços de monta para reactivar o processo de paz no Médio Oriente. No mês passado liderou a histórica reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas em que foi aprovada de forma unânime uma resolução instando os países dotados de armamento nuclear a reduzirem esse poder bélico.

Mas, apesar dos ambiciosos objectivos internacionais, o Presidente norte-americano ainda não conseguiu romper o impasse nas negociações entre israelitas e palestinianos, tão pouco obteve quaisquer resultados no que toca ao polémico programa nuclear iraniano. A par disto tem pela frente muito difíceis escolhas a fazer nos terrenos de guerra em que os Estados Unidos estão envolvidos, à cabeça sobre a forma como conduzir a guerra no Afeganistão.

Dotado de um poder oratório e magnetismo pessoal incomuns, Barack Obama, 48 anos, tem vindo a ganhar ao longo dos quase nove meses em funções como Presidente uma vaga de simpatia e apoio por todo o mundo – apesar de os críticos apontarem dúvidas se existe verdadeira substância nas suas inspiradoras declarações de boas intenções.

Advogado de formação (estudou em Harvard e trabalhou muitos anos na defesa dos direitos cívicos), Obama fez história ao tornar-se no primeiro chefe de Estado negro dos Estados Unidos ao derrotar, a 4 de Novembro de 2008, o candidato republicano John McCain; mas já vinha electrizando o país desde quatro anos antes, quando discursou na convenção dos democratas sobre a confiança em si próprio e o sentimento de inspiração que o norteia. Tornou-se desde logo uma das mais visíveis figuras políticas em Washington, amplamente elogiado pelos media, e publicou dois livros que foram êxitos brutais de vendas, incluindo “The Audacity of Hope”.

Senador desde 2004, eleito pelo Illinois (onde antes cumprira dois mandatos, a partir de 1996, como senador estadual), é filho de um queniano, um pastor de cabras que ganhou uma bolsa de estudo numa universidade do Hawai, e de uma branca norte-americana do Kansas.

Nasceu no Hawai mas viveu também em Jacarta, entre os seis e os dez anos de idade, após a mãe se casar com um indonésio e, depois disso, regressou à terra natal onde cresceu junto com os avós maternos. A narrativa pessoal da história de vida de Obama é muito feita desta experiência de crescimento em ambientes culturais diversos e dos exemplos familiares que reflectem os ideais norte-americanos.

Houve um recorde de 205 nomeações este ano. Entre os nomeados estava o primeiro-ministro do Zimbabwe, Morgan Tsvangirai, e um dissidente chinês. O prémio será entregue em Oslo a 10 de Dezembro, data da morte do seu fundador, o industrial e filantropo sueco Alfred Nobel.

Nobel para Obama foi uma surpresa mas nem todos elogiam a escolha

O mundo reagiu com indisfarçável surpresa à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama. Mas se a maioria diz que a distinção premeia a nova abordagem diplomática seguida pelo Presidente americano, também há quem pense que a escolha do comité norueguês é precipitada e mesmo quem a considere uma “piada de mau gosto”.

O prémio “consagra o regresso da América ao coração de todos os povos do mundo”, escreveu o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, numa das primeiras mensagens recebidas na Casa Branca. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, já congratulou Obama pela distinção, que diz constituir “um incentivo para o Presidente e para todos” a fazer ainda mais pela paz mundial

Já o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirma que a escolha representa “um reconhecimento das expectativas criadas pela determinação do Presidente Obama em trabalhar de perto com os parceiros dos EUA na procura de respostas globais aos desafios globais”.

Ao anunciar a decisão, esta manhã, o presidente do Comité Nobel norueguês explicou que foi dada “muita importância à visão e aos esforços de Obama com vista a um mundo sem armas nucleares”.

E um dos principais implicados no processo, o actual director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Mohamed ElBaradei, declarou-se “absolutamente encantado” com a escolha. Obama, “no poder há menos de um ano”, “deu uma prova de uma liderança extraordinária” ao comprometer-se com a redução dos arsenais nucleares e com “o diálogo como melhor forma de resolver os conflitos”.

A decisão do comité também foi saudada por antigos laureados – entre eles Nelson Mandela, Mikhail Gorbachev e Wangari Maathai –, mas as reacções foram menos positivas noutros pontos do globo, em particular nos países onde estão presentes as forças militares americanas.

Contactado pela Reuters, Zabihullah Mujahid, porta-voz dos taliban afegãos, repudiou a escolha: “Prémio Nobel da Paz? Obama deveria era ter ganho o prémio Nobel por aumentar a violência e matar civis”. E no vizinho Paquistão, alvo de frequentes bombardeamentos da aviação americana contra redutos taliban, o partido islamista Jamaat-e-Islami classificou o prémio de “piada de mau gosto” face à política praticada pelos EUA na região.

E no Iraque, onde ainda permanecem dezenas de milhares de soldados americanos, houve também quem não escondesse o seu desagrado. “Ele não merece o prémio. Há tantos problemas – o Iraque, o Afeganistão – que ele não fez nada para resolver. O homem da mundança não mudou nada”, explicou Issam al-Khazraji, um iraquiano ouvido esta manhã pela Reuters nas ruas de Bagdad.

A resolução do conflito entre israelitas e palestinianos é outra das grandes prioridades da administração americana e de lá vieram reacções distintas. Para o principal negociador da Autoridade Palestiniana, Saeb Erakat, Obama é o homem certo “para conseguir a paz” na região. Já o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, diz que a escolha do comité é, no mínimo, prematura: “Obama tem ainda um longo caminho a percorrer e muito trabalho para fazer antes de merecer este prémio”.

Os dez últimos Nobel da Paz

2009 – Barack Obama, Presidente dos EUA, “pelos seus esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia e a cooperação entre os povos”.

2008 - Martti Ahtisaari, antigo Presidente finlandês, pelos seus esforços na mediação de conflitos em vários continentes, durante mais de três décadas, “que contribuíram para um mundo mais pacífico e para a ‘fraternidade entre as nações’ no espírito de Alfred Nobel”.

2007 - Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, e ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, pelos “esforços para aumentar e propagar um maior conhecimento sobre as alterações climáticas provocadas pelo homem, e por lançar as fundações e medidas necessárias para combater essas mudanças”.

2006 - Muhammad Yunus e o Grameen Bank, do Bangladesh, pelo seu trabalho no combate à pobreza através do micro-crédito, “criando desenvolvimento económico e social a partir da base. A paz duradoura não pode ser conseguida a não ser que grandes grupos populacionais encontrem formas de sair da pobreza”.

2005 – Agência Internacional de Energia Atómica e o seu director, Mohamed ElBaradei, pelo “empenho contra a proliferação de arsenal nuclear e por tentar que a energia nuclear seja usada com fins civis da forma mais segura possível”.

2004 - Wangari Maathai, ambientalista do Quénia, “pelo seu contributo para um desenvolvimento sustentável, democracia e paz”.

2003 - Shirin Ebadi, advogada do Irão, “pelos seus esforços pela democracia e direitos humanos. Centrou-se particularmente na luta pelos direitos das mulheres e das crianças”.

2002 - Jimmy Carter, ex-Presidente dos EUA, devido às “décadas de um esforço incansável para encontrar soluções pacíficas para os conflitos internacionais, para o desenvolvimento da democracia e dos direitos humanos e para a promoção do desenvolvimento económico e social”.

2001 - Kofi Annan, então secretário-geral das Nações Unidas, e ONU, “pelo seu trabalho para um mundo melhor organizado e mais pacífico”.

2000 – Kim Dae-jung, então Presidente sul-coreano, “pelo seu trabalho pela democracia e direitos humanos na Coreia do Sul e no Este Asiático em geral, e pela paz e reconciliação com a Coreia do Norte em particular”.

Fonte: Público

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Thursday, October 8, 2009

UNITA denuncia manobras na Comissão Constitucional

O maior partido na oposição ameaça mesmo retirar os seus membros da Comissão Técnica da Comissão Constitucional

O presidente da UNITA, Isaías Samakuva, chamou a imprensa para denunciar que o MPLA cometeu uma ilegalidade no processo constituinte.

Nesta quarta-feira, 30, Samakuva afirmou que membros do partido que dirige, integrados na Comissão Técnica da Comissão Constitucional, receberam para análise, um documento de 78 páginas, na madrugada do dia 30 de Setembro, que serviria para ser discutido numa reunião marcada para as 10 horas.

O aludido documento, que não foi exibido aos jornalistas e que disse ser de origem duvidosa, por não ter Ireneu Mujoco uma autentificação, segundo Isaías Samakuva, não deu entrada nos prazos estabelecidos pela Lei, já expirado, e nem por vias legais ao seu partido como mandam as regras administrativas. Por este motivo, o referido documento vai ser considerado em contravenção à lei e à metodologia de trabalho aprovadas pela própria Comissão Constitucional que não reúne há mais de um mês: “ Este é um mau começo” deplorou.

Como protesto, a UNITA não participou na aludida reunião, acusando o MPLA de pretender acabar com as eleições presidenciais em Angola.

“O MPLA quer que o Presidente de transição continue em funções, sem ser eleito pelo povo, em violação às disposições da Lei Constitucional”.

Samakuva referia como Presidente de transição José Eduardo dosSantos pelo facto de não convocar eleições presidenciais, conforme uma deliberação saída de uma das sessões do Conselho da República (CR) seu órgão de consulta, que determina a sua realização um ano depois das legislativas.

“ O MPLA agora quer um regime parlamentar especial, atípico. Um regime em que o Presidente da República é o Chefe de Estado, é o Chefe do Governo, nomeia todos os juízes, dirige o Conselho de Ministros, a Polícia, a Segurança, controla o Orçamento, mas não é responsável pelos seus actos”, acusou o conferencista que se encontrava ladeado do secretário-geral, Abílio Camalata Numa, e de outros membros da Comissão Política Permanente.

Visivelmente agastado com o ocorrido, o líder da UNITA foi mais longe ao criticar este regime em que o Presidente da República quer exercer todo o poder de soberania que pertence ao povo, “ mas não quer ser eleito directamente pelo povo, nem sequer prestas contas ao povo.

Um regime em que o PR seja um órgão unipessoal e uninominal, mas eleito numa lista plurinominal, que serve para eleger deputados”, desabafou.

Prosseguindo, Isaías Samakuva acusou, mais uma vez, o MPLA, principal adversário político do partido que dirige, de pretender atribuir vários cargos ao Chefe de Estado, tais como os de deputado, vicepresidente da República, advogando que tais atribuições figuram na sua proposta de Constituição que diz ser semelhante a da UNITA. Segundo a fonte, existem 53 diferenças. (ver peça à parte).

O presidente da UNITA, entende que as forças políticas são livres para apresentarem as propostas que quiserem, reiterando que as do MPLA divergem com as do seu partido.

Socorrendo-se nos seus depoimentos, Samakuva exemplificou que o MPLA propõe a eleição indirecta de um órgão unipessoal em listas plurinominais, ao passo que o seu partido propõe que o poder executivo das autarquias seja um órgão colegial e pluripartidário.

Por causa desta situação, a UNITA não prevê que as eleições presidenciais sejam convocadas ainda no ano em curso, reforçando que a Lei Constitucional e os compromissos assumidos também não são respeitados. “ A palavra dada nunca é cumprida. Primeiro condicionou-se a realização da eleição ao processo constituinte, depois avançou-se com as indirectas e agora, os dirigentes do MPLA estão a andar pelo país a forçar os angolanos a aceitar a chamar de eleições directas às indirectas”, denunciou.

Esta maior força política na Oposição reafirma que a não realização da eleição presidencial nos termos da legislação vigente abala a legitimidade política do Presidente da República, e o MPLA não tem poder e legitimidade para agredir a Lei nem para sustentar qualquer subversão à democracia, muito menos para exercer isolado o poder constituinte.

Isaías Samakuva concluiu afirmando que a discussão sobre a Constituição deve servir para unir os angolanos, e convida o partido no poder para dialogar com sentido de Estado e com a dignidade que o assunto encerra.

Ireneu Mujuco

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Frescura aquece no tribunal

A semana foi marcada pelo arranque, na 5ª Secção de Crime Comum do Tribunal Provincial de Luanda, de um dos mais mediáticos julgamentos dos últimos tempos. Sete agentes da Polícia, afectos ao Comando da Divisão de Policia do Sambizanga, alegadamente implicados no conhecido “massacre da Frescura”, no município do sambizanga, ocorrido no dia 23 de Julho do ano passado de que resultou na morte de oito jovens, estão envolvidos.

Pela primeira vez, os familiares das vítimas tomaram contacto com os presumíveis autores do horrendo crime que deixou marcas indeléveis naquela comunidade do Musseque Mota, facto que levou à exaltação dos ânimos de muitos presentes.

Pela forma ostensiva como muitas destas pessoas reagiram, a sala de audiências teve de ser parcialmente evacuada, por ordem do juiz.

Aliás, a sala da audiências reservada para esta sessão de julgamento foi pequena para acolher a multidão que acorreu àquele lugar, entre familiares e amigos das vítimas, bem como alguns curiosos atraídos pela dimensão e repercussão que este caso tomou.

Medidas excepcionais de segurança foram tomadas pela Polícia, que reforçou a sua presença, destacando mais homens e meios para o local, por temer alguma reacção no calor de fortes emoções do momento por parte dos familiares das vítimas.

Faustino Alberto, Simão Pedro, Manuel André, Euquias Bartolomeu, João Miguel Lourenço, Miguel Domingos Inácio Francisco, bem como João Almeida, são estes os sete agentes sobre quem recaem as acusações.

Colocados no sector de Investigação Criminal no município do Sambizanga, pesa a acusação de crime de homicídio qualificado de acordo com artigo 361 do código penal, por haver evidências claras de intenção de matar, de acordo alegações do Ministério Público.

A sessão de julgamento, presidida pelo juiz Salomão Felipe, começou com a audição aos dois agentes da Direcção Provincial de Investigação Criminal do Sambizanga, os inspectores Miguel Domingos Inácio “Micha” e João Miguel Florêncio “Djudju”, nomes pronunciados por uma das vítimas antes de morrer como autores da acção criminosa, sobre quem recaem as maiores provas indiciárias de envolvimento no caso.

Ouvidos separadamente, os dois agentes negaram o envolvimento neste crime, alegando inocência por, supostamente na hora do cometimento deste crime, se encontrarem a estudar na escola Missionária do Dom Bosco, sita ao Roque Santeiro, que por sinal não fica muito distante da zona do crime. Os dois réus negaram serem efectivos do Departamento de Investigação Criminal do Comando da Divisão de Polícia do Sambizanga, alegando que são efectivos da Ordem Pública.

No decorrer da audiência, os arguidos não foram convincentes nas explicações que prestaram sobre a coincidência de ambos não terem assistido à aula da disciplina de Língua Portuguesa, no período das 19h40 minutos até às 21 horas, um facto que chamou a atenção do juiz Salomão Felipe, bem como da representante do Ministério Público, a procuradora Isabel Neves Rebelo, e do advogado de acusação.

Miguel Domingos Inácio “Micha, nas suas declarações, apresentou algumas contradições quanto à hora que terá realmente saído da escola, alegando que o fez por volta das 21 horas por se encontrar incomodado na altura. Mas durante a instrução referiu que foi às 22 horas.

Também não pôde explicar o porquê da falta à aula de Língua Portuguesa, no período entre as 19h40 minutos e as 21 horas, uma vez que o registo do livro do ponto atesta a presença do professor na sala de aulas.

De igual modo, João Miguel Florêncio “Djudju disse que se terá ausentado da aula para participar de uma reunião preparatória da Feira da Ciência que, entretanto, não aconteceu, permanecendo todo este tempo na escola até às 21 horas, sem no entanto ter participado nas demais aulas.

A audiência de julgamento deve prosseguir na próxima semana para as alegações finais, uma vez que até quarta-feira as sessões estavam reservadas à audição dos réus, enquanto os doze declarantes arrolados ao processo foram ouvidos nos dias posteriores.

“A culpa não pode morrer solteira”, diz o advogado de acusação Nas breves palavras que teceu para os órgãos de comunicação social, o advogado David Mendes salientou que as sessões iniciais estavam reservadas ao apuramento de provas, uma fase em que se tenta buscar ao máximo as incidência do cometimento do crime.

Por esta razão, essa ocasião ainda é muito cedo para se tirar qualquer ilação.

De acordo com David Mendes, o presente processo não se afigura fácil tanto para a acusação, como para a defesa, enfatizando que partes da acusação vão se empenhar mais para a produção de provas para que este não seja mais um caso a cair no esquecimento.

Sereno, o advogado de defesa, Ildefonso Chipaka Maurício, nas declarações prestadas ao jornal O PAÍS, disse que as primeiras sessões de julgamento correram dentro da expectativa, aguardando pelo desenrolar das próximas sessões.

Por outro lado, o advogado dos réus Micha e Djudju considera ser bastante prematuro chegar-se a uma conclusão sobre a posição definitiva do tribunal, mas necessariamente, defende o advogado, terão que absolver os seus clientes.

A convicção das informações prestadas, bem como o respaldo da própria lei, leva a crer na inocência dos seus clientes, facto que terá aludido no início da audiência.

O “massacre da Frescura” aconteceu no dia 23 de Julho de 2008, quando oito jovens que se encontravam a conversar no Largo da Frescura foram barbaramente assassinados a tiro por volta das 19 horas, supostamente pelos réus que compareceram esta semana em tribunal.

As vítimas deste massacre foram Ismael Escórcio da Silva, Eretson Varanda Francisco, Paulo Caricoco Neto, Fernando Cristóvão Manuel, Elias Borges Pedro, João André Van-Dúnem, André Luís Marques e Aguinaldo Azevedo Simões.

Valdimiro Dias

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Equilíbrio da taxa de câmbio está tímido no mercado formal

Quatro dias depois da intervenção do BNA no mercado cambial, com a feitura da venda de divisas nos leilões no Banco Central, a oferta de cambiais a nível dos bancos comerciais ainda está tímida.

O Jornal de Angola fez uma ronda em alguns bancos comerciais, casas de câmbio, e conversou com algumas kinguilas, da baixa de Luanda, e verificou que o equilíbrio no mercado formal e o informal está lento.

A nota de 100 dólares está a ser vendida a 9 mil e 800 kwanzas e a compra 8 mil e 900 kwanzas, contra os 10 mil e trezentos, preço que era praticado há uma semana. Nos bancos comercias a compra está a 8.5 e venda entre 8 a 8.5 mil kwanzas a nota de 100 dólares. Nos bairros da Vila Alice, Calemba II e Prenda, a nota de 100 dólares, ontem, estava a ser comercializada a 9 mil dólares a venda e a compra a 8 mil e 500 kwanzas.

Em todos os bancos e casas de câmbio por onde a equipa de reportagem do Jornal de Angola passou, não se vendia divisas, para qualquer cidadão, porque os bancos comerciais aguardam por uma autorização.

A gerente de um dos bancos comerciais, que pediu o anonimato, informou que neste momento já estão autorizados a vender divisas aos clientes que viajam para o exterior. “Os clientes que estão devidamente identificados com o bilhete de passagem e outros comprovativos, a estes vendemos sem precisar fazer um requerimento”, disse.

Referiu ainda que estão sujeitos ao requerimento, os clientes que fazem transacções comerciais para pagamento das importações de mercadorias e outras. Mas garante que logo que forem autorizadas a comercializar o dólar, como foi antes, o quadro vai mudar.

Ana Maria é kinguila, e está neste negócio há 10 anos e disse que a taxa de câmbio em relação às divisas continua ainda alta, porque os bancos comerciais também não estão a liberalizar a compra. Ontem, Ana quis comprar divisas no seu banco - que é o banco Sol -, mas não conseguiu porque também recebeu como resposta que a agência “está à espera de autorização”. E isso, na opinião da kinguila, faz com que os clientes ainda procurem dólar nos mercados paralelos, porque a oferta no mercado formal é reduzida.

Ana tem certeza de que logo que os bancos comerciais forem autorizados, a nota vai baixar ainda mais. “Se já baixamos trezentos kwanzas é porque quando os bancos comerciais decidirem vender ainda vamos baixar mais”, disse.

Recentemente o ministro das Finanças, Severim de Morais, disse que a chave do problema está em, de forma sustentada, ir fornecendo ao mercado cambial as divisas necessárias para se garantir o equilíbrio do mercado, dando maior confiança à moeda, dando maior confiança às famílias e aos empresários.

E assim paulatinamente vai se estabelecer um certo equilíbrio dentro do mercado monetário, dentro do mercado cambial. “O grande problema não é num determinado dia vender-se grandes quantidades de divisas nos leilões no Banco Central, mas sim continuar a manter-se este título de vendas”, referiu.

Jornal de Angola

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Sonangol e Isabel dos Santos têm 3% do PSI 20

Os investimentos angolanos no mercado de capitais português, que se restringem aos da Sonangol e de Isabel dos Santos (filha do Presidente Eduardo dos Santos), valiam 1813 milhões de euros no início de Setembro, o que representa três por cento do total da capitalização bolsista do principal índice, o PSI 20.

As contas foram feitas pela consultora AT Kearney, que apresentou ontem um estudo sobre as tendências das operações de fusões e aquisições entre Portugal e os países emergentes. Ao todo, estes mercados já têm um peso de cinco por cento, equivalente a três mil milhões de euros, cabendo ao Brasil, com um por cento do valor total de capitalização bolsista, o segundo lugar de maior investidor entre os países em desenvolvimento.

Aqui destacam-se os investimentos do Bradesco no BES e do Itaú no BPI. O outro um por cento está dividido por diferentes origens, como a China (Stanley Ho, com pouco mais de dois por cento do BCP), Argélia e Emirados Árabes Unidos (na EDP).

No caso dos investimentos angolanos, estes são protagonizados por apenas duas entidades e em três empresas. Primeiro foi a entrada da Sonangol e de Isabel dos Santos, via Esperaza, na Amorim Energia, da qual controlam 45 por cento do capital, ou seja, 15 por cento, de forma indirecta, da Galp, avaliados em 1206 milhões de euros.

Depois, a petrolífera angolana começou a comprar acções do BCP, detendo já dez por cento e que, ao valor de cotação de 1 de Setembro, valiam 424 milhões de euros. Mais recentemente, Isabel dos Santos, através da Santoro, ficou com os 9,7 por cento do BPI que estavam nas mãos do BCP.

De acordo com as contas da AT Kearney, as acções de Isabel dos Santos valiam 183 milhões de euros no início do mês passado. João Rodrigues Pena, vice-presidente da AT Kearney para Portugal e Espanha, considera que, dentro de cerca de três anos, o crescimento da economia angolana, suportado pelo aumento do preço de matérias-primas como o petróleo e pela abertura (que tem sido adiada) do mercado de capitais, fará aparecer “novos empresários com interesse e capacidade para investir”.

É expectável, também, que os actuais investidores venham a olhar para outras empresas e sectores, sendo público o interesse demonstrado pela Sonangol em entrar na EDP. Por outro lado, João Rodrigues Pena considera que haverá outros países a receber investimentos de Angola sob a forma de aquisições e fusões, tendo Portugal sido o primeiro passo para entrar em outros mercados, até por uma lógica de diversificação.

Ao todo, o investimento angolano em Portugal, entre 2005 e 2008, foi de 791 milhões de euros, enquanto o valor de Portugal para Angola foi de apenas 75 milhões, segundo as contas da consultora, já que a maioria do capital está ligado a projectos e parcerias locais (no período em análise este valor foi da ordem dos dois mil milhões de euros). Já no caso do Brasil, Portugal aplicou 715 milhões de euros neste país da América do Sul nos últimos quatro anos, tendo as empresas brasileiras investido 157 milhões no mercado nacional.

Ao todo, Angola e Brasil, incluindo as apostas em empresas não cotadas (como a compra de parte das OGMA pela Embraer, por exemplo), valem mais de 60 por cento do valor das operações de fusões e aquisições efectuadas em Portugal com base em mercados emergentes. A análise da AT Kearney explica que, no caso das empresas brasileiras, estas têm como objectivo a internacionalização, “envolvendo sobretudo aquisições maioritárias” de pequenas e médias empresas.

A curto prazo, espera-se uma retoma do crescimento das fusões e aquisições por parte dos países emergentes (que esmoreceu no último ano), devido a factores como a subida dos preços das matérias-primas e a necessidade de capital por parte dos países mais desenvolvidos. E, diz João Rodrigues Pena, há ainda um importante volume de investimentos a captar para Portugal.

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Angola e Portugal depois das legislativas

Fala-se em abrandamento possível do ritmo das relações mas poucos acreditam que isso possa acontecer

Os resultados das últimas eleições legislativas portuguesas poderão levar a um ligeiro abrandamento no ímpeto com que se tem desenvolvido a relação deste país com Angola. Tal abrandamento poderá durar por dois anos, já que a maioria dos analistas pensa que o novo governo socialista de José Sócrates não deverá aguentar-se por mais tempo.

A não ser que o seu maior rival, o PSD, não se consiga organizar internamente, até lá, e seja do seu interesse manter os socialistas no poder e parar a subida do CDS e do Bloco de Esquerda.

Tendo ganho com maioria relativa, Sócrates terá de governar fazendo equilíbrios, buscando entendimentos ora à sua direita, ora à sua esquerda.

Será uma legislatura em que não se tomarão grandes decisões e em que se legislará o menos possível. Será para gerir os dossiers correntes e fazer charme ao eleitorado.

Angola entra nestas contas pela forma descontinuada como é vista quer pelos políticos como por muitos cidadãos portugueses. Para estes, os cidadãos, Angola de hoje significa dinheiro, a fuga ao desemprego e salários não sonháveis em Portugal. E é fácil verificá-lo. Quase não há português que se cruze com um angolano e que não manifeste a sua vontade de “conhecer” Angola.
Quase não há empresário que não quer colocar os seus produtos em Angola. As exportações portuguesas caíram muito nos seus mercados tradicionais, Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos. Angola tem sido o destino que tem fornecido muito do oxigénio que faz crescer algumas áreas da economia portuguesa e isso é reconhecido nos relatórios de contas de bancos e de empresas de construção civil, principalmente. Há, por outro lado, o investimento angolano em Portugal que além de capital tem permitido também a geração de alguns postos de trabalho.

O normal seria esperar que as relações entre os dois países continuassem a correr sem entraves, independentemente das maiorias que governassem Portugal, vistas as coisas no plano económico e social. E vão continuar a correr bem. Mas no plano políticos os sorrisos é que poderão não ser tão abertos como têm sido.

Entraves à esquerda
No actual desenho do Parlamento português, o Partido Socialista só governaria em paz se fizesse um acordo com os dois partidos à sua esquerda.

Bloco de Esquerda (BE) e a Coligação Democrática Unitária (CDU), dominada pelos comunistas. Acontece que o Bloco de Esquerda não quer ouvir falar do governo angolano.

Na última visita de José Eduardo dos Santos a Lisboa, esta formação preferiu não estar presente quando o presidente angolano visitou o Parlamento luso.

Durante a campanha eleitoral, Francisco Louçã, o líder bloquista referiu, por mais de uma vez, ao Governo angolano com palavras muito duras, pondo até em causa a “legitimidade” do dinheiro com que empresas angolanas investem em Portugal.

Para viabilizar as relações com o governo angolano, está visto que não virá grande ajuda da esquerda. O bloco, está longe, de qualquer forma, de um entendimento com os socialistas em Portugal. As formas de olhar para a sociedade e para a economia são diferentes. A CDU tem poucos deputados embora fosse viabilizar qualquer acordo com o governo angolano, tendo em conta as relações históricas entre o PCP e o MPLA. No plano interno é que é impensável um acordo entre CDU e PS.

À direita com cedências
O PS poderia governar com tranquilidade se chegasse a um acordo de governo com o CDS de Paulo Portas.

Não vai acontecer. É quase contranatura e pode, tal acordo, fracturar o próprio PS. Os socialistas mais esquerdistas jamais aceitariam um acordo com Portas. Um tal acordo esvaziaria o PS à esquerda e permitiria o avanço do BE. As consequências eleitorais não seriam nada boas para os socialistas. Mas o CDS e PSD são os que mais facilmente viabilizariam acordos com Angola. O PSD porque tem mantido boas relações com o governo do MPLA, além de ter nas suas esferas vários empresários com interesses em Angola.

O CDS também não colocaria obstáculos de maior. Muitos dos seus membros e ex-membros que dedicaram muito do seu tempo, no passado, a atacar os governantes angolanos são hoje vistos com frequência em Luanda como empresários ou consultores.

Paulo Portas, o líder do CDS que ainda gasta algum do seu tempo a culpar os imigrantes pelos males de Portugal é suficientemente inteligente para perceber que inviabilizar as relações com Angola pode significar a zanga de alguns direitistas cujos negócios têm prosperado no eixo Lisboa-Luanda.

De qualquer forma, para já, não será de esperar que Portas deixe de atacar os imigrantes, mesmo quando alguns médicos cubanos a trabalhar sessenta e quatro horas por semana, em Portugal, ganham apenas trezentos euros (quase o salário mínimo nacional) cerca de um quarto do que ganha qualquer português ajudante de operário em Angola.

Mas a viabilização das políticas de Sócrates para Angola resultaria sempre de acordos em que o PS teria de ceder a algumas exigências do CDS ou do PSD.

No entanto, existem alguns factores que tenderão a deixar as coisas em banho-maria. Portugal está às portas das eleições autárquicas, uma batalha importante que servirá de barómetro e de antecâmara para as eleições legislativas antecipadas ou intercalares que se adivinham no horizonte.

A oposição não permitirá que o PS chegue ao fim do seu mandato, muito menos se surgirem sinais de retoma na economia mundial. Quem não quer governar em bonança? Quem quer que um partido minoritário faça flores que lhe poderão valer uma maioria absoluta nas eleições seguintes?

O compasso eleitoral
O ritmo das relações Angola Portugal fica sem grandes acelerações institucionais por força do calendário eleitoral português. O PS tem apenas uma maioria relativa no parlamento.

O tema Angola é sempre motivo de discussões e divergências em Portugal e, para somar, há as eleições autárquicas já agora em Outubro, o que fará com que Portugal olhe para dentro de si.

E as eleições presidenciais para daqui a cerca de um ano. Neste período eleitoral Angola voltará a ser, certamente, assunto para uma ou outra conversa, principalmente quando se falar de economia e emprego. Cada investimento de vulto feito num e no outro lado merecerá discussão. Mas os empresários e os povos, esses, estarão moucos para os discursos políticos. Há vidas para levar à frente.

Resultados das eleições

As relações entre Portugal e Angola são de excelência e não serão postas em causa, nem vão sofrer nenhuma alteração depois do escrutínio que retirou a maioria parlamentar ao Partido Socialista, segundo um ex-dirigente do Partido Socialista.
Vítor Ramalho, acredita no reforço das relações económicas entre os dois países que considera importantes e que trazem benefícios para os dois povos e para ambos os países.
Os investimentos são importantes para Portugal e para Angola uma porta de entrada na Europa, segundo o dirigente socialista que considera importante todas as sinergias entre os países que falam português num mundo global.

José Kaliengue10:18

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